23.7.13

O que aprendi hoje

lendo 'Apocalípticos e integrados', do Umberto Eco (1969)

Pete Seeger e sua esposa Toshi-Aline, em foto de Steve Sherman/NYT.

Pra mim, Pete Seeger era um contador de histórias. Tão bom que conseguia cativar mesmo aqueles que, como eu, não entendiam metade das palavras que ele dizia. Na sua voz, acompanhada do banjo, as canções pareciam brotar do enredo sem esforço, como se a vida tivesse mesmo uma trilha sonora. Em 1991, eu sonhava em sentar no chão ao pé da sua cadeira e ouvi-lo gritar, num sussurro: "there she blows!", suspendendo por um instante a mão do banjo e apontando o quadrante do oceano para onde nadavam, fora do nosso alcance, as baleias.

[pete, a terrific storyteller]

Só uns dez anos depois, numa palestra do antropólogo Anthony Seeger, que é irmão do Pete e estudou a música dos Suyá (que hoje preferem ser chamados Kĩsêdjê) do Mato Grosso, é que eu soube da sua importância para a folk music e para a construção de uma tradição de canções de protesto nos EUA. Mesmo tendo cantado tantas vezes "We Shall Overcome", acompanhando a fita cassete emprestada da biblioteca pública, lá nos anos 90, eu nunca fizera a ligação entre esse repertório e a voz que me chamava da outra fita cassete, a das histórias para crianças.

[sing for freedom]

Agora, através do Umberto Eco, conheci mais uma das canções do Pete Seeger: "If I Had a Hammer". Fala de coragem, persistência e solidariedade, apontando as semelhanças entre a ação sobre a matéria (realizada pelo martelo do trabalhador), a tarefa de registro, reflexão e denúncia (levada a cabo pelo sino do porta voz) e a beleza que brota da vida compartilhada (concretizada na canção). É especial também porque começa falando de um presente de escassez e falta, mas não joga a realização do desejo para um futuro distante, para a terra prometida. Aquele que canta chama para si a responsabilidade pela realização do sonho nesta vida, aqui e agora, para si e para todos.


Essa canção, composta com Lee Hayes em 1949, foi gravada por dezenas de artistas, principalmente a partir dos anos 60. Foi um dos hinos que ajudaram a construir o movimentos pelos direitos civis nos EUA e é considerada a canção símbolo do Wikileaks.

Em 1963, a italiana Rita Pavone gravou uma versão com letra de Sergio Bardotti (o mesmo que compôs as canções d'Os Saltimbancos que, vertidas para o português pelo Chico Buarque, fizeram tanto sucesso por aqui). Foi assim que ela chegou com mais força até nós, no contexto da Jovem Guarda. Como quase todo mundo, sei cantar o "tiu-riu-tiu-rá". O problema é que não é, de jeito nenhum, a mesma canção. Irreverente (Umberto Eco diz que ela se apresenta "como expressão de um audacioso anarquismo juvenil"), a adolescente pede um martelo para "bater na cabeça" de quem ela não gosta: a garota bonita que atrai todos os olhares na pista de dança, os casais que namoram ao som das músicas lentas e até o telefone, através do qual a mãe e o pai interferem na diversão e chamam de volta à realidade. Para que não fiquem dúvidas, a última estrofe pede "um golpe na cabeça de quem não é dos nossos", para preservar a beleza, a harmonia e a força do que ela chama "os nossos bailes"... Num único passo, a utopia humanista do Pete Seeger se transformou num arremedo de solução final!


Não é à toa, portanto, que tanta gente se apavorou com a indústria cultural e o entretenimento de massa.

Entendi hoje.

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