Ocupo
um dos bancos na parte de trás do ônibus, que parece deslizar pela
cidade gelada. Seguimos aliviados, ao abrigo do vento e da umidade. O
calor dos corpos e da nossa respiração embaçou as janelas. Os
passageiros que viajam em pé me impedem de ver o para-brisa, mas
sei que há visibilidade, graças a um braço mecânico que trabalha do lado de fora e ao braço solidário do cobrador que ajuda pelo lado de
dentro.
Não
sei onde estamos, em qual parte do trajeto, quão perto do meu
destino. Me sinto segura e a confiança no mundo é inebriante.
Sacolejamos suavemente sobre o pavimento. Uma mulher à minha
direita, logo adiante, passa os dedos pelo vidro, tentando enxergar a rua; a janela continua opaca. Um rapaz lá na frente faz o
mesmo, também sem sucesso. As tentativas vão se multiplicando, às
vezes tímidas, outras vezes nervosas ou intrigadas, mas a fina
camada de sereno cobre a vidraça pelo lado de fora e sobrevive
impassível a todos os ataques. Me sinto ainda mais feliz.
Ao
cantar dos freios, na próxima parada, uma gota escorrega pela
superfície externa do vidro, cortando ao meio os dizeres 'SAÍDA DE
EMERGÊNCIA'. Na arrancada seguinte, como que respondendo a um sinal,
a água escorre sucessivamente em vários pontos, formando linhas
irregulares que tendem para baixo e para trás, sulcos escuros na
pele brilhante do leviatã.
Alguns pontos adiante, quando as portas
pneumáticas se abrem e eu piso a calçada, é cedo ainda. Mas meu
dia está ganho.
os.usos.do.olho.míope.7