Autor: Mariasun Landa
Ilustração: Elena Odriozola
Tradução: Luiz Roberto Guedes
Série: Barco a Vapor, Azul, n. 26
Editora: SM, 2013
Este livro é um pequeno milagre de artesania e delicadeza. A sensação de estar diante de uma amostra única e perfeita desse bicho de muitas cabeças e corações que é o livro para crianças surge da combinação de diversas facetas ou aspectos do texto e das imagens. Para mim, foi efeito direto da experiência tão íntima e efêmera de ler uma história por prazer.
As três narrativas estão em 1a. pessoa, mas sem compromisso com a noção de 'fluxo de consciência', porque são textos escritos pela protagonista em resposta a necessidades ou solicitações cotidianas: um duo de cartas que busca compartilhar uma situação angustiante com a avó já falecida e pedir seu conselho, uma redação para a escola e um conto inscrito (e premiado) num concurso. São textos despretensiosos que nos colocam em contato direto com sua autora (Iholdi), mas que não estão centrados nela e sim nos acontecimentos; descrevem amorosamente as pessoas com quem Iholdi convive e o ambiente que os circunda. As repetidas aparições, como imagens obtidas a partir de ângulos ligeiramente diferentes, faz do parque do bairro um lugar familiar também para o leitor.
Assim, a própria escolha do gênero textual, por assim dizer, é capaz de criar uma estrutura sutil que, por ser diáfana e aparentemente 'natural' (simplesmente está lá), empresta credibilidade e complexidade à protagonista.
Além disso, as situações narradas desconstroem (e isso sem o ruído e o espalhafato de marretas e alto-falantes) o mito de uma infância idílica, protegida da violência urbana (armas são escondidas e encontradas, drogas são passadas e repassadas) e das dificuldades da vida adulta (existe a morte, existe a loucura e a deficiência), sem nunca precisar recorrer aos clichês do mundo cão. E, para adicionar sabor à mistura, sem precisar que os adultos intercedam para resolver as complicações que inevitavelmente aparecem no caminho de um alguém tão vivo e atento.
Iholdi abarca com seu olhar desde o céu de onde a avó acompanha sua trajetória e escuta suas preocupações até as camadas profundas onde a amiga Deo enterra seus pequenos tesouros, num sumário da experiência humana, toda ela pontuada por lutos e veios por onde flui a continuidade e a história. No meio do caminho fica o parque, misto de natureza (principalmente o lago com patos, cisnes e o salgueiro-chorão na beirada) e cultura (culminando no mapa que permite localizar os 'túmulos' cavados e marcados por Deo com flores, vidro colorido e palitos de dentes), um parque constatemente percorrido e habitado por muitos adultos e crianças.
As ilustrações (assim como a diagramação do livro) também falam de delicadeza e cuidado, revelando, na maneira como muitas vezes prescinde de contornos e se apoia no mesmo branco sobre o qual são impressas as palavras, um tocante amor às texturas e aos silêncios. É como se dissessem: 'somos da mesma substância', ou 'falamos das mesmas coisas', ou 'temos a mesma origem' ou 'o mesmo fim'.
Esses diferentes aspectos trabalham imperceptivelmente e em perfeita sintonia para criar uma atmosfera de delicadeza, um continente apropriado para os segredos de Iholdi. Dessa forma, a autora nos oferece um potente argumento a respeito da 'inviolabilidade' dos segredos e da sua importância na construção da intimidade, de um espaço pessoal que a criança aos poucos aprende a proteger e a relacionar com a sua identidade, seu senso de si como um arranjo singular e precioso de traços e experiências.
É significativa também a sutileza com que o livro faz emergir como relevantes e desejáveis traços e modos de estar no mundo que nos acostumamos a atribuir às mulheres (e, justamente por isso, a considerá-los menores ou secundários): a delicadeza e os meio-tons, o cuidado consigo e com o outro, a capacidade de realçar a humanidade dos seus interlocutores, inclusive os antagonistas. Num tempo em que começamos a valorizar a assertividade, a coragem e a iniciativa nas meninas e mulheres, abrem-se dessa forma novos horizontes na busca do equilíbrio e da equidade. O próximo passo talvez seja encontrar meninos e homens que se destaquem por essas qualidades 'femininas' e fundamentem nelas as suas ações e atitudes enquanto protagonistas das histórias que lemos com tanto prazer.
Em suma, Mariasun nos mostra como um segredo bem guardado sinaliza não só o respeito à intimidade de outra pessoa, mas também a relevância da intimidade na dinâmica do si mesmo, ao mesmo tempo em que descreve diversas maneiras pelas quais os segredos podem ser compartilhados sem que sejam violados, o que pode ser bastante útil para o leitor, que oxalá cultiva os seus próprios segredos...

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