Por Jarrett Pumphrey - 18 de março de 2021
Os irmãos Jarrett e Jerome Pumphrey formam uma dupla dinâmica que está causando furor no mundo do livro ilustrado. Seu primeiro livro, The Old Truck (O velho caminhão), ganhou diversos prêmios e mereceu resenhas elogiosas nos periódicos dos profissionais do livro e das bibliotecas. O mais recente, The Old Boat (O velho barco), foi publicado este mês. No artigo que escreveu como convidado para o blog da Mackin Community, Jarret compartilha conosco o modo como, nos livros que escrevem, ele e seu irmão deixam sempre (e de propósito) um espaço livre para que o leitor construa sua própria história.
“O que aconteceu com a avó? A baleia engoliu ela?”
Esta foi a pergunta que Jerome e eu escutamos de uma criança numa das primeiras visitas a escolas que fizemos com o nosso novo livro, The Old Boat. Estávamos na parte dos questionamentos do público e ouvimos as perguntas de sempre: Qual foi a inspiração para este livro? De onde vêm as ideias de vocês? Como é trabalhar com um irmão? Perguntas boas, todas elas, mas uma questão em particular nos fez parar pra pensar. “Como é que é?”
“O que aconteceu com a avó? A baleia engoliu ela?”
O aluno falava de uma página dupla específica, onde um menino e sua avó olham admirados para uma baleia que sobe à tona bem perto do velho barco em que eles estão. O menino e a avó tinham aparecido juntos no barco em cada uma das páginas duplas anteriores. Mas, na página que se segue a esta, aparece somente o menino, agora um homem, sozinho no barco. O aluno queria saber o que tinha acontecido com a avó na virada da página. Teria sido engolida pela baleia?
Jerome e eu nos olhamos e sorrimos. Que ótima pergunta!
Essa questão resume de forma brilhante muitas horas de debate a respeito de um assunto que aparece com frequência nas nossas conversas, principalmente quando fazemos livros ilustrados: espaço. O espaço que deixamos nas palavras para as imagens; o espaço que deixamos nas imagens para as palavras. E, o que é mais importante, o espaço que deixamos em ambos para o leitor, espaço que, esperamos, ele vai encontrar.
Para nossa alegria, este leitor e esta pergunta tinham encontrado o espaço que deixamos. No meu íntimo, inventei uma coreografia desajeitada para comemorar. Jerome não dança, desajeitado ou não, mas imagino que o seu eu interior estava balançando a cabeça, discretamente satisfeito.
Sabe, quando trabalhamos num livro novo, geralmente começamos decidindo quais partes da história queremos contar com palavras e quais partes preferimos contar com imagens. Nem sempre as coisas são assim tão claras, mas é basicamente isso. Mas a fase mais gratificante do processo é decidir qual parte da história vamos confiar ao leitor, para que ele conte. Que pedaço da história nós não vamos contar, para que o leitor tenha espaço para suas próprias ideias? É o mais gratificante, mas também o mais nebuloso. A gente acha que está deixando espaço nos lugares certos, mas nunca temos certeza. Não até que alguém faça aquela pergunta perfeita: aí a gente sabe que acertou, pelo menos em parte.
“Ela estava no barco quando eles viram a baleia e depois ela não estava mais, então a baleia deve ter engolido ela, certo?”
Já que as perguntas perfeitas só podem surgir depois que o livro foi publicado, acabamos deixando espaço livre em muitos lugares, como por exemplo nas palavras. “Ao largo de uma pequena ilha, um velho barco, um lar”. O velho barco é um lar que fica ao largo da ilha ou é ali que ele, o barco, se sente em casa? Vê o espaço? Existe espaço de manobra para o leitor.
Às vezes, o espaço é literal: basta deixar um intervalo em branco para o leitor preencher. Por exemplo, como já havíamos feito com o caminhão no primeiro livro, The Old Truck, na maioria das páginas de The Old Boat, o barco aparece sempre no mesmo lugar. Mas há uma página dupla em que ele não aparece. Onde foi parar?
Ou o caso da baleia e da avó. Numa virada de página, deixamos espaço entre os eventos de uma imagem e a seguinte. Temos as nossas ideias sobre o que acontece entre as páginas, mas os leitores também têm. Então, confiamos neles para contar aquela parte da história. E muitas vezes eles nos surpreendem.
“Uma baleia pode engolir uma avó, sabia?”
Gostamos de pensar que, no livro ilustrado, é nesse espaço que a mágica acontece. Quando esse espaço se abre, o leitor encontra uma história que ultrapassa aquilo que as palavras e as imagens podem contar por si mesmas. É um espaço que recompensa as releituras, um espaço que faz a gente inclinar a cabeça e reavaliar tudo que pensou que sabia. É o espaço onde os leitores tomam posse da história. O espaço onde pelo menos um leitor decidiu que uma baleia engoliu uma avó.
“Tenho certeza de que a baleia engoliu a avó”.
Deixamos espaços abertos nas nossas histórias por todas essas razões, mas principalmente porque os leitores sabem contar histórias muito melhores do que as nossas.
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Jarrett Pumphrey é autor/ilustrador e ex-CEO de uma startup de tecnologia. Natural de Houston, vive agora em Austin, no Texas.
Jerome Pumphrey é ilustrador e designer gráfico da The Walt Disney Company. Natural de Houston, vive agora em Austin, no Texas.
Juntos, são os autores e ilustradores de The Old Truck, que foi finalista do prêmio Ezra Jack Keats, apareceu na lista de melhores livros de 2020 da revista Horn Book, foi escolhido pelos editores do site The Booklist Reader e considerado o livro favorito na National Public Radio (NPR) em 2020. O novo livro ilustrado deles, The Old Boat, foi publicado em 2 de março de 2021.
O artigo original em inglês está aqui: 🐳
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