26.6.21

Coisa de brincar






A ilustradora espanhola Imogen Duthie tem um projeto em andamento chamado Retrato de uma coisa de brincar, que consiste em desenhar, a cada semana, uma coisa de brincar que tenha chamado a sua atenção. O retrato n°4 (o primeiro de encontrei) me fez escrever este poema meio troncho e irreal, mas amorosamente amarrado no rordeste. Pensei em Sobradinho e nas profecias do Conselheiro, além de numa canção do Chico Buarque. Deixo os fios soltos aqui, como iscas.


A bola de linho e cordão
Foi uma de cinco marias
Pegou garnizé de raspão
Sorveu água fresca da bilha
Com ela o menino ameniza
O mormaço do pátio sem brisa

A mão é a forma do pano
A força que molda e amassa
Mais leve, o cordão entre os dedos
Se enreda num ata-e-desata
A destra arremessa pro alto
O corpo responde num salto

O pouso nem sempre é conjunto
Cada um cai no chão e derrapa
Com o tempo, a sujeira do mundo
Dispõe sobre a bola uma capa
E depõe a favor do brinquedo:
Viveu com amor esse enredo

E quando a pelota se ausenta
O olho percorre a paisagem
Arbusto, capim, suculenta
Menino que pede passagem
Procura essa bola de pano
Daqui até o rio-oceano

Encontra o botão verde-azul
Que perdeu na semana passada
Encontra o Cruzeiro do Sul
Se olha pro céu da invernada
A bola de linho, ela mesma
Sumiu feito trilha de lesma

Mas sabe que nada é pra já
Talvez num futuro distante
Se um dia o sertão virar mar
Será descoberta importante
A bola, brinquedo bem feito
Menino, da obra o sujeito



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