Katherine Mansfield
III
Beryl estava sozinha na sala quando Stanley apareceu, vestindo um terno de sarja, colarinho duro e gravata estampada. Parecia impecavelmente limpo e escovado; ia passar o dia na cidade. Largou-se na cadeira e tirou o relógio, colocando-o ao lado do prato.
“Tenho apenas vinte e cinco minutos”, disse. “Você pode ir ver se o mingau está pronto, Beryl?”
“A mãe acabou de ir”, respondeu ela, sentando-se à mesa e servindo o chá.
“Obrigado!”, Stanley tomou um gole. “Opa!”, disse ele com surpresa na voz. “Você esqueceu o açúcar”.
“Ah, desculpe!” Mas ainda assim Beryl não fez o serviço; empurrou o açucareiro para perto dele. O que estava acontecendo? Stanley se serviu e arregalou os olhos, que pareciam tremer. Dirigiu à cunhada um olhar rápido e recostou-se.
“Nenhum problema à vista, ou há?”, perguntou descuidado, afrouxando o colarinho.
Beryl tinha a cabeça baixa; rodou o prato entre os dedos.
“Nenhum”, disse a sua voz suave. E então Beryl olhou de volta para ele e sorriu. “Por que haveria?”
“O-oh! Motivo nenhum, até onde eu sei. Você me pareceu um tanto...”
Nesse instante, a porta se abriu e as três garotinhas apareceram, carregando um prato de mingau cada uma. Vestiam roupas parecidas: camiseta e bermuda azul; as pernas bronzeadas estavam à mostra e as três traziam o cabelo trançado e preso no que se costumava chamar de rabo de cavalo. Atrás delas veio a Sra. Fairfield com a bandeja.
“Cuidado, crianças”, avisou ela. Mas elas tomavam o maior dos cuidados. Adoravam quando os adultos permitiam que elas carregassem coisas.
“Sim, vovó”. Sentaram-se no banco, de frente para Stanley e Beryl.
“Bom dia, Stanley!”. A velha Sra. Fairfield passou a ele o seu prato.
“Bom dia, mãe! Como está o menino?”
“Ótimo! Acordou somente uma vez esta noite. Que manhã perfeita!” Com a mão pousada sobre o pão, a velha senhora fez uma pausa para olhar o jardim pela porta aberta. O mar marulhava. Pela janela bem aberta o sol jorrava sobre o verniz amarelo das paredes e o assoalho nu. Tudo na mesa brilhava e reluzia. No meio havia uma antiga saladeira cheia de capuchinhas vermelhas e amarelas. Ela sorriu e um olhar de profunda alegria iluminou seus olhos.
“Você pode cortar uma fatia desse pão para mim, mãe”, disse Stanley. “Tenho apenas doze minutos e meio antes do coche passar. Alguém levou os meus sapatos para a empregada?”
“Sim, estão prontos para você”. Nem sombra de incômodo por parte da Sra. Fairfield .
“Ah, Kezia! Por que você é tão desastrada?”, exclamou Beryl desesperançadamente.
“Eu, tia Beryl?”, disse Kezia, encarando-a. O que ela tinha feito dessa vez? Tinha cavado um rio no meio do mingau, enchido esse rio, e estava comendo as margens aos poucos. Mas fazia isso todo dia de manhã e ninguém nunca tinha dito uma palavra.
“Por que você não come direito, como a Isabel e a Lottie?” Como os adultos são injustos!
“Mas a Lottie sempre faz uma ilha flutuante, não é, Lottie?”
“Eu não”, disse Isabel, esperta. “Eu polvilho o meu com açúcar e ponho leite e como tudo. Só criancinhas brincam com a comida”.
Stanley afastou a cadeira e se levantou.
“Você me vê os sapatos, mãe? E Beryl, se você já terminou, gostaria que fosse até o portão e parasse o coche. Corra até a sua mãe, Isabel, e pergunte onde foi parar o meu chapéu-coco. Espere aí — vocês crianças andaram brincando com a minha bengala?”
“Não, pai!”
“Mas eu deixei aqui”, Stanley começou uma bronca. “Lembro claramente de colocá-la aqui neste canto. Então, quem pegou? Não posso perder tempo. Olhem com atenção! É preciso encontrar a bengala!”
Até Alice, a empregada, foi convocada para ajudar na caçada. “Você não a usou para avivar as chamas do fogão por acaso?”
Stanley entrou apressado no quarto onde Linda estava deitada. “Que coisa mais extraordinária. Não tenho nada que seja meu de verdade. Sumiram com a minha bengala, agora!”
“Bengala, querido? Que bengala?” A indiferença de Linda em ocasiões como essa não podia ser real, decidiu Stanley. Será que ninguém o compreendia?
“O coche! Stanley, o coche!”, a voz de Beryl gritou do portão.
Stanley acenou para Linda. “Não há tempo para despedidas!”, exclamou. E com isso ele pretendia castigá-la.
Ele fisgou seu chapéu-coco, saiu de casa correndo e disparou pela trilha do jardim. Sim, o coche esperava, e Beryl estava apoiada no portão aberto, rindo para uns e outros como se nada tivesse acontecido. A insensibilidade das mulheres! O modo como elas partiam do pressuposto de que o seu papel era labutar como um escravo enquanto elas nem ao menos se davam ao trabalho de cuidar para que a sua bengala não se perdesse. Kelly instigou os cavalos com o rebenque.
“Adeus, Stanley”, falou Beryl, doce e alegremente. Era fácil dizer adeus! E lá ficou ela, ociosa, sombreando os olhos com a mão. O pior de tudo era que Stanley tinha que dar adeus também, em nome das aparências. E ele viu quando ela se virou, deu um pequeno salto e correu de volta para casa. Estava feliz por se livrar dele!
Sim, estava grata. Entrou correndo na sala e gritou: “Ele já foi!” Linda chamou do quarto: “Beryl! Stanley já foi?” A velha Sra. Fairfield surgiu, carregando o menino com seu casaquinho de flanela.
“Já foi?”
“Já foi!”
Ah, o alívio, a diferença que fazia estarem os homens fora de casa! Até a voz delas mudava quando falavam umas com as outras; soavam cálidas e amorosas e era como se compartilhassem um segredo. Beryl foi até a mesa. “Tome mais uma xícara de chá, mãe. Ainda está quente”. Ela queria, de algum modo, celebrar o fato de que agora podiam fazer o que quisessem. Não havia homem nenhum para perturbá-las; o dia inteiro, perfeito, era delas.
“Não, obrigada, pequena”, disse a velha sra. Fairfield, mas o jeito como naquele momento ela jogou o menino para cima e disse “upa-lá-upa-lá-lá!” mostrou que ela sentia o mesmo. As meninas correram pelo quintal como galinhas liberadas do galinheiro.
Até Alice, a empregada, lavando a louça na cozinha, contagiou-se e usou a preciosa água da pia com perfeita inconsequência.
“Ah, os homens!”, disse ela, e afundou o bule na bacia e o manteve embaixo d’água mesmo depois que ele parou de soltar bolhas, como se fosse também um homem e morrer afogado fosse bom demais para eles.
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THE GARDEN PARTY (1922)
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