Uma narrativa ficcional no contexto da capacitação de equipes de saúde
CORPO PRETO. Direção: Nany Oliveira. Produção: Artplan. Brasil: IDOMED/YDUQ, 2025.
Um personagem sem nome, sem fala, sem rosto. Um artista que se apresenta (e sustenta sua presença em nossa memória) tocando em seu trumpete umas poucas notas que denotam elegância e talento, mas também anos de estudo e dedicação [1]. Uma pessoa que, para nossa tristeza, nunca chegamos a conhecer.
Uma performance interrompida pela dor [2]. E nessa inconveniente intermitência entramos nós. Nisso que deveria ser um breve lapso, um intervalo entre atos. Um silêncio que, com ajuda nossa, acaba se tornando permanente.
As imagens não mostram, aliás, a interrupção de uma apresentação pública, mas de um ensaio, da preparação individual que acontece antes mesmo da prática de conjunto, que poderia, por sua vez, ser um momento de expressão e troca entre pares. De forma que, ao buscar ajuda, o artista está só [3].
Compreende-se, então, espero, que justamente uma canção* me permita aproximar o corpo preto do filme do corpo negro da Física.
Podemos dizer que o corpo negro é um meio ou uma substância que absorve toda energia que sobre ele incide, inclusive a luz; por isso, nossos sentidos (e ultrassonografias e ressonâncias) não conseguem percebê-lo senão como ausência.
Mas assistindo ao curta, tudo o que vemos é o espelho; o que varia é a capacidade de perceber detalhes e, claro, a reação pessoal à narrativa apresentada. Levamos a sério o apagamento do rosto e temos talvez medo de fetichizar o corpo do homem negro retratado.
Não conseguimos percebê-lo e no entanto ele irradia. Foi a radiação de corpo negro que permitiu aos cientistas determinar que o universo está em expansão.
O corpo preto do artista (que não enxergamos enquanto tal) está "apontando pra expansão do universo" humano; sua arte, precocemente silenciada, "é o que pode lançar mundos no mundo". Por isso também não deveríamos nos dar ao luxo de perder tantas vidas, sementes potenciais de um mundo realmente novo.
O corpo preto do artista em sofrimento irradia seus sentidos universo afora e tropeça nos astros, desastrado. Mas um véu de luz elétrica nos impede de acompanhar sua coreografia, seus desastres, nossa iminente tragédia.
Notas:
O texto menciona três aspectos da vida sob o racismo institucionalizado:
[1] a lida, o "corre" como essência da vida precária numa sociedade desigual e extrativista;
[2] o sofrimento crônico que decorre da violência cotidiana, naturalizada;
[3] a solidão de todo ser humano, aprofundada pelo ignorante que, ao desumanizar o outro, desumaniza a si mesmo.
* VELOSO, Caetano. Livros. In: Livro. Rio de Janeiro: Philips, 1997. 1 CD, faixa 2. Disponível em: Livros
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