OLAVO
odilon moraes
Editora: Jujuba, 2018
Existem
livros tagarelas, livros orquestrais, livros sussurrantes. Olavo é feito de
silêncio. E num mundo como o de hoje, em que só a produtividade e a eficiência levam ao
sucesso e à felicidade, isso não é pouco.
A capa mostra a fachada de um edifício-moradia. Parece muitíssimo alto, porque vemos nuvens perto das janelas. Milhares de pessoas devem morar ali, no anonimato, talvez na solidão. E então, como se desviássemos o olhar ainda mais para o alto, encontramos as guardas, de um azul celeste profundo. Mas não se trata da cor pura, como é fácil encontrar num livro: este é um céu pintado, um céu de pinceladas, o céu de alguém para alguém. As letras azuis de Olavo, as letras minúsculas de Odilon, me levam a equacioná-los, aproximá-los, buscar ligações entre eles, sempre em torno desse azul.
O texto,
esparso, abre grandes horizontes para as imagens; conciso, dita o ritmo da
leitura, fazendo a gente virar a página. Somos fisgados pelo contraste entre o
sépia das fotos envelhecidas e o azul do ar, entre o traço do lápis e a fluidez
da tinta, entre o infinito de dentro (que se desdobra em espelhos) e o infinito
lá de fora (acessível pelas janelas, mas também pela imaginação). Mas é na
escansão da última frase, no sustenuto
sem esforço (v. Ella Fitzgerald) em que a gente se perde e se encontra, é lá
que mora o abismo do não-saber, é de lá que brota a descoberta.
O todo
poderoso Odilon é o autor, o ilustrador e o narrador onisciente desta história.
Mas o mundo jamais viu um poder ser exercido com tanto respeito, com tamanha
atenção e paciência. Por isso mesmo nenhum retrato é tão humano e revelador das
incertezas, das potencialidades e da capacidade de inventar a si mesmo que
existe em cada criança, triste ou não, e também em cada leitor.
A delicadeza
está na natureza do menino, na atitude da menina, nas palavras que acolhem, nas
ilustrações que jamais se pretendem definitivas. Na sua concisão, a narrativa
revela que é parcial, em benefício dos personagens, que mantêm amplas porções
de suas vidas longe dos olhos tantas vezes indiscretos dos leitores, mas também em
favor desses últimos. Porque todos nós lemos também para aprender novas formas
de estar no mundo, e o Olavo (ou será o Odilon?) é um ótimo professor.

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