10.3.20

Olavo, Odilon





OLAVO
odilon moraes
Editora: Jujuba, 2018





Existem livros tagarelas, livros orquestrais, livros sussurrantes. Olavo é feito de silêncio. E num mundo como o de hoje, em que só a produtividade e a eficiência levam ao sucesso e à felicidade, isso não é pouco.
A capa mostra a fachada de um edifício-moradia. Parece muitíssimo alto, porque vemos nuvens perto das janelas. Milhares de pessoas devem morar ali, no anonimato, talvez na solidão. E então, como se desviássemos o olhar ainda mais para o alto, encontramos as guardas, de um azul celeste profundo. Mas não se trata da cor pura, como é fácil encontrar num livro: este é um céu pintado, um céu de pinceladas, o céu de alguém para alguém. As letras azuis de Olavo, as letras minúsculas de Odilon, me levam a equacioná-los, aproximá-los, buscar ligações entre eles, sempre em torno desse azul.
O texto, esparso, abre grandes horizontes para as imagens; conciso, dita o ritmo da leitura, fazendo a gente virar a página. Somos fisgados pelo contraste entre o sépia das fotos envelhecidas e o azul do ar, entre o traço do lápis e a fluidez da tinta, entre o infinito de dentro (que se desdobra em espelhos) e o infinito lá de fora (acessível pelas janelas, mas também pela imaginação). Mas é na escansão da última frase, no sustenuto sem esforço (v. Ella Fitzgerald) em que a gente se perde e se encontra, é lá que mora o abismo do não-saber, é de lá que brota a descoberta.
O todo poderoso Odilon é o autor, o ilustrador e o narrador onisciente desta história. Mas o mundo jamais viu um poder ser exercido com tanto respeito, com tamanha atenção e paciência. Por isso mesmo nenhum retrato é tão humano e revelador das incertezas, das potencialidades e da capacidade de inventar a si mesmo que existe em cada criança, triste ou não, e também em cada leitor.
A delicadeza está na natureza do menino, na atitude da menina, nas palavras que acolhem, nas ilustrações que jamais se pretendem definitivas. Na sua concisão, a narrativa revela que é parcial, em benefício dos personagens, que mantêm amplas porções de suas vidas longe dos olhos tantas vezes indiscretos dos leitores, mas também em favor desses últimos. Porque todos nós lemos também para aprender novas formas de estar no mundo, e o Olavo (ou será o Odilon?) é um ótimo professor.


Nenhum comentário: