[exercício: criar narrativa a partir do parágrafo abaixo, de Jacques Prévert]
Estou no metrô, sonolento, e de repente acordo por causa de alguma coisa desagradável que me faz cócegas no queixo. Acordo e vejo um homenzinho de pé, de camisa branca, que me passa energicamente pelo rosto um pincel molhado.
A sensação não é de todo estranha: conheço a cadeira do barbeiro. Levo a mão ao queixo e vejo que não se trata de espuma de barbear, mas de tinta. Macia, espessa. Conforme os meus dedos vão se inteirando disso, percebo também o cheiro forte do solvente.
Tento me levantar, mas o ar se tornou viscoso e qualquer movimento leva uma eternidade. A luz fria do trem também luta para avançar através dos redemoinhos de cor que parecem sair do pincel do homenzinho.
Não sei se estou sonhando ou sob efeito. Se quiser chegar no escritório a tempo, preciso trocar de linha na próxima estação. Mas, talvez por inércia, prefiro continuar neste carro. Desta vez, a sensação de irrealidade é tranquilizante, quase agradável.
O homenzinho chega bem junto de mim e então se afasta rapidamente, caminhando com agilidade entre o meu rosto e o banco reservado aos idosos, aquele mais perto da porta, onde escolhe e mistura as tintas. Vejo que, sobre a camisa branca, ele usa um colete. Mas nem sempre: em pelo menos uma ocasião, traz sobre os ombros um casaco, em outras, um sobretudo e, de vez em quando, usa também um lenço ou uma gravata. Parece mais à vontade quando veste apenas a camisa branca, que flutua em torno do seu corpo magro como os pardais em volta do ninho.
Mais pinceladas de vermelho cobrem a parte baixa do meu rosto. No topo da cabeça, as cores aplicadas me fazem sentir, um depois do outro, o vento morno ondulando o meu cabelo, o frio que se insinua entre os fios curtos e claros, um chapéu de feltro que me deixa apresentável e um outro, de palha, que dá vontade de ir ver os corvos no trigal. Reagindo, dessa forma, ao seu pincel, também eu flutuo entre configurações diferentes de adereços e aparência, de identidade e essência.
Observo os gestos ao mesmo tempo suaves e enérgicos do homenzinho: ele parece motivado por uma forte convicção intelectual. Ou dotado de algum sentido excepcional: a visão aguda de um predador, talvez, ou a audição daqueles que podem virar presa. O calor das suas mãos sussurra que o motor do mundo é sempre um amor sem motivo. Mas é difícil decifrá-lo. Ele fala e é como se conversasse, mas eu não entendo a sua língua.
Também a mensagem que sai dos alto-falantes do metrô me soa incompreensível. O trem parece avançar rápido, engolindo trilhos e fronteiras. O infinito de fora é tão escuro e insondável quanto o infinito de dentro.
O pincel do homenzinho não para e, a cada momento, traz uma cor diferente para compor a minha pele. Um verde claro como água de nascente, que ele despeja e se esvai entre pedras e poros. O azul real profundo. Os rosas e laranjas do jardim no verão. O branco da ausência. O ouro da vida em comum.
Ele pinta os meus olhos com calma e discernimento e eu, perdido nas entranhas desse trem que acelera rumo a um destino que desconheço, vejo retratos de pessoas e de flores, mastigo batatas e carvão, sonho com uma casa amarela, viajo através da noite estrelada e sinto uma vontade irresistível de coçar uma orelha que já não existe.
O homenzinho pousa o pincel e admira sua obra. Ele sou eu, Vincent.
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Vincent Van Gogh, Self-Portrait with Grey Felt Hat, 1887
Currently at Van Gogh Museum, Amsterdam
Currently at Van Gogh Museum, Amsterdam
A viagem inaugural do metrô de Paris aconteceu em 1900. Vincent Van Gogh morreu em 1890.
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