Tree of Cranes
Allen Say
Houghton Mifflin, 1991
👉Aqui👈, você pode ler
A árvore dos grous
(texto traduzido em 2021)
É uma pena, mas acho que uma tradução desta história dificilmente seria aceita para publicação. Porque incorpora na sua essência, embebida no tecido palavra-imagem, uma diversidade ‘difícil’. O outro se apresenta para nós sem muitas concessões à nossa ignorância, sem explicações, sem estabelecer pontos de contato imediatos, conosco e com a nossa cultura.
Acho que posso dizer ‘nossa cultura’, apesar do leitor original ser americano, e não brasileiro. Porque eles e nós somos parte de um mesmo mundo que, para simplificar, podemos chamar de Ocidente ou civilização judaico-cristã.
A falta de explicações é particularmente dolorosa com relação ao Natal: um leitor sensível diria que Mama (e com ela o autor) omitiu o ‘real significado’ das festividades. Mas esse leitor se esquece da cultura ‘de chegada’ dessa jovem imigrante, da nova vida à qual ela precisa integrar sua história e sua visão de mundo. Para nós, que não precisamos equilibrar nada, é difícil até imaginar o que seria esse outro arranjo de tudo com tudo, a matriz infinita da cultura, que uma pessoa nunca acaba de desvendar.
Aliás, esse recurso simples — a imigrante é "uma das nossas" que decidiu adotar um outro mundo e não um estrangeiro que chega ao nosso belo e desejável país — é muito efetivo porque obriga o nosso pescoço a girar ainda um pouco mais para conseguir abarcar a situação.
Além disso, o silêncio (da mãe, do menino, das imagens) pra nós é estranho, meio antipático, e talvez moralmente repreensível. Mas o espaço que essa quietude abre para a reflexão e a elaboração por parte do menino cria um arco narrativo paralelo e precioso, que exemplifica a diferença entre os estilos americano e japonês de criação de filhos, apontada por Bruno Bettelheim em Uma vida para seu filho: pais bons o bastante.
Menos estranheza causa o aparecimento do ofurô (slide 7), usado para o banho de imersão, já que muitas casas no ocidente passaram a adotá-lo.
Aparece também de forma implícita na história um costume muito interessante dos japoneses: eles usam saudações verbais para renovar cotidianamente as relações entre as pessoas (no contexto de uma família, por exemplo), a cada vez que saem de casa e depois, ao voltar. Ao sair, é costume dizer: “ittekimasu” — “estou indo, mas logo volto”; a pessoa que fica responde: “itterashai” — “vá e volte, por favor”. Ao retornar, se diz: “tadaima” — “voltei agora”; a pessoa que estava esperando diz: “okaeri” — “bem-vindo de volta”. Por isso o menino, logo no início da história, fica preocupado quando não vê a mãe nem ouve a sua voz ao voltar para casa.
Talvez a distância no tempo (a ausência de telas e telinhas é notável) e a diferença entre metrópole e campo (ou ‘subúrbio’) também aumentem a atmosfera de isolamento, em que a neve parece abafar todo o ruído do entorno. Faz sentido, porque estamos imersos no mundo interno do menino, centrado ainda no universo doméstico, mas já atento à vida anímica dos outros. Por outro lado, as ilustrações sugerem um intenso intercâmbio entre o mundo natural e o humano: nas suas construções e artefatos, a cultura japonesa se apropria repetidamente da madeira, do papel e do algodão, tratados de forma a denotar despojamento e até um certo ascetismo. Já nos primeiros slides (ou páginas duplas), vemos como as pedras arredondadas pavimentam o caminho até as carpas, mas também até a casa do menino; o insucesso em avistar as carpas (ocultas também do leitor pelo excesso de luminosidade) faz contraponto com a ausência da mãe (ilustrado pelo interior escuro e enigmático da casa). Nas páginas subsequentes, notamos que o papel que reveste as grandes aberturas da casa suaviza a transição entre o dentro e o fora, deixando passar a luz mas borrando contornos e filtrando os sons.
Finalmente, o texto menciona comidas esquisitas, para nós nada apetitosas: o bolo de chá (que pela imagem sabemos ser verde), a papa de arroz (que na versão da minha obá era uma canja de galinha deliciosa em que o arroz ficava cozinhando por muito tempo, resultando em grãos ‘explodidos’, que eu adorava), a ameixa salgada (o umebôshi é a fruta desidratada em salmoura, que até hoje eu acho difícil de engolir, e que também tem um caráter terapêutico) e o rabanete amarelo (takuan, uma conserva de nabo que vai muito bem com arroz branco), tudo acompanhado de chá quente (sem açúcar, claro).
Existe ainda um outro fator que contribui para a sensação de estranheza e que custei a identificar: aqui, as ilustrações quase prescindem da linha de contorno. Me dou conta agora de que o ‘desenho de linha’ constitui uma espécie de língua franca na literatura para crianças, ajudando a sinalizar um caráter ficcional e amigável, por vezes quase condescendente. Talvez por isso os livros do Anthony Browne, por exemplo, sejam tão perturbadores: as ilustrações sem contorno talvez apontem para um vazamento generalizado na fronteira entre realidade e ficção. tornando a narrativa perigosa mesmo quando a história é tranquila. No livro que estamos interrogando, essa sensação compõe com o apagamento dos limites visuais e sonoros promovido pela neve lá fora e pela penumbra dentro da casa, potencializando os riscos. O fino traço que delineia o rosto do menino no slide 16 é a única coisa que sustém sua individualidade, impedindo a fisionomia de se dissolver no fundo claro do ambiente.
Tudo isso me dá a impressão de que o autor não se esforçou para agradar superficialmente o leitor, negando concessões que garantiriam a sua simpatia (e a compra do livro, deve-se acrescentar). O que me faz gostar ainda mais do conjunto.
🍚🍜🍵
O escritor Jim Averbeck (que também trabalha como ‘mentor’ e professor de escritores iniciantes, com ênfase no livro ilustrado) costuma usar uma ferramenta de análise (e guia no processo de escrita e revisão) chamada ‘forma da história’. Consiste em traçar uma linha que retrate o desenrolar da história em termos de ação, problematização/obstáculos e resolução. Com essa ferramenta, ele consegue identificar formas ‘problemáticas’ ou ‘ruins’, indicando por exemplo as histórias onde nada acontece depois da ação inicial ou aquelas em que ‘coelhos são tirados da cartola’ logo antes do final. Como exercício, tentei quantificar a tensão acrescentada (ou a dúvida acumulada) a cada slide (ou página dupla) deste livro, o que resultou na figura abaixo.
Acho o enredo ‘desafiador’ para o leitor porque, mesmo depois que a tensão para de crescer, a situação demora ainda algumas páginas para se esclarecer plenamente, atingindo uma espécie de clímax quando a árvore fica pronta e o menino se aconchega na mãe. Depois disso, a história continua um pouco mais, trazendo uma nova frustração quando a neve impede o menino de brincar com o presente que ganhou. A conclusão acrescenta ainda uma camada de ‘respeito ao outro’ ao revelar que o narrador não é o menino pequeno, mas o homem já crescido que recorda: relendo o texto, podemos apreciar como a perspectiva do menino, com todas as suas limitações, é preservada das intromissões indevidas de um narrador que já conhece o futuro próximo e também o mais distante. Complementa e retoma, além disso, a etapa do platô que prepara o clímax, nomeando finalmente um dos temas principais da história: o Natal.
“Quando uma imagem conta uma história,
você não precisa escrevê-la.
Isso foi para mim uma grande revelação”.
você não precisa escrevê-la.
Isso foi para mim uma grande revelação”.
Em termos odilonísticos, constatamos que, mesmo sendo também o ilustrador deste livro, o autor não adota a concisão como valor básico e não evita a redundância no circuito imagem-palavra (apesar na citação acima, que encontrei num artigo do The Oregon). São exemplos dessa despreocupação, no slide 10, a frase “Estava nevando lá fora” e, no slide seguinte, “Carregava uma árvore num vaso azul”. No entanto, é preciso notar que a tarefa de transmitir as informações a respeito do contexto cultural da história (tão importante, como vimos acima) fica totalmente a cargo das imagens. O texto, por sua vez, imagina cenas que não vemos (como, no slide 9, a fita de casca da maçã) e enriquece a experiência do leitor trazendo à baila novas dimensões como os sabores, os sons (como nos slides 7 e 9) e o tempo que passa, dando profundidade à narrativa.
Em defesa da obra, devemos dizer que as frestas para a construção de sentidos, se não aparecem na dissonância ou no diálogo entre texto e ilustração, surgem a todo instante nos espaços de incerteza (do menino, do leitor) dados pela distância interculturas e pela natureza inacessível da vida interior de cada um.
Um outro ponto de interesse é que todo o processo pelo qual o protagonista deste livro constrói uma noção do Natal como fato cultural (descrito com vagar e sem muita explicação) pode ser lido como uma alegoria do processo de letramento, de como a gente chega a “compreender” uma obra literária. O que se destaca, aqui, é o fato de que esse aprendizado acontece através do outro significativo (Mama). E vai continuar a acontecer, vida afora, sempre na presença de um outro internalizado. Assim, talvez a relevância da escola não resida na pedagogia e no sistema educativo, mas na simples existência (presença, resistência) dxs professorxs e dxs colegas.
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No slide 6, Mama está fazendo pássaros de origami: são os notáveis tsurus que, quando dobrados em quantidade, sinalizam a determinação necessária para alcançar graças e realizar intenções de saúde e proteção para outras pessoas. Em inglês, língua na qual foi escrita esta história, esse pássaro se chama crane, nome que ele compartilha com o equipamento da construção civil que em português chamamos grua. Na nossa língua, tsuru se diz grou.
O contraste entre as figuras do pássaro e da máquina, do grou e da grua, me fez fantasiar uma relação de filiação entre elas: pode a grande grua gestar um grou? pode a grua-guria parir um pequeno pássaro? A partir desse delírio, pensar nesse mesmo diapasão a relação entre o menino e sua mãe, mediada pelo origami, foi um passo quase natural. Daí o desejo de enfatizar esse laço — esse enlace — no título do meu texto.
A maneira como Mama lê a árvore enfeitada com os tsurus e as velas (que foram cuidadosamente acesas pela criança) com seu filho no colo, dando a ver na luz tremulante e difusa uma terra distante da qual ela talvez sinta saudade e que ele ainda desconhece — passado e futuro de uma vez — é uma bela metáfora para a literatura escrita para crianças. É também uma corporificação da noção de herança e do modo como o tempo passa: sempre de corpo a corpo, sempre através da pele de quem vive.
A verdade é que quanto mais tempo passamos em companhia da história, mais ela nos cativa e nos ensina. Que seja assim sempre.
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P.S. Quando estava com 13 anos, Yuriko, a filha do autor, escreveu seu perfil. Você pode lê-lo aqui.
Ao ler esse ensaio, ficamos sabendo que Allen Say nasceu no Japão e emigrou para os Estados Unidos. Essa informação coloca em evidência um traço que o autor compartilha com seus personagens: a situação de deslocamento. Assim como Mama, ele está permanentemente “a caminho” entre duas nacionalidades, em vias de se tornar estrangeiro em relação a si mesmo. Assim como o menino, ele busca acesso à vida interior do outro (a mãe, a filha), num devir que jamais se completa. Autores como Gilles Deleuze (Crítica e clínica. São Paulo: Editora 34, 1997) e de Paul Preciado (“Meu corpo não existe”. In: Um apartamento em Urano: crônicas da travessia. RJ: Zahar, 2020), nos ajudam a apreciar a precária posição do autor, a meio caminho entre o trabalho com a palavra (já que é o escritor) e o uso das imagens (já que é também o ilustrador).
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