Autor: Nuria Barrios
Ilustração: Catarina Bessell
Tradução: Carla Branco
Quarta capa: Rodrigo Lacerda
Editora: Cosac Naify, 2014
O romance da espanhola Nuria Barrios é protagonizado por uma garota que viveu seu primeiro ano num orfanato, na China. Aos 14 meses, foi adotada por um casal espanhol que, poucos anos mais tarde, adotou mais uma menina, também chinesa. Quando conhecemos Nix, ela está com seis anos e luta para tomar posse de suas origens e lidar com o sofrimento que experimentou nos primeiros meses e que ainda experimenta. Com a intenção de ajudá-la a dar sentido a essas vivências, sua mãe adotiva cria histórias.
-2- Alguns pensamentos próprios
Ao descrever o percurso do par mãe-criança para falar da importância de sermos pais bons-o-suficiente (e não perfeitos), Bruno Bettelheim [1] postula que, logo após o nascimento, a identificação da mãe com o bebê é tão, ela sim, perfeita, que as necessidades dele (bebê) são sempre prontamente atendidas, evitando a angústia e o desespero, criando mesmo uma ilusão de onipotência.
Num primeiro momento, é disso que o bebê precisa. Mas aos poucos, conforme vai construindo sua experiência (e, nela, a si mesmo e ao mundo), as necessidades da criança mudam. Ela já não precisa de alguém que satisfaça seus desejos antes mesmo que eles sejam formulados. Ela precisa de espaço (e de tempo) para agir sobre o mundo, para se frustrar e superar a frustração. E é exatamente isso que os pais 'imperfeitos', apenas bons-o-bastante, oferecem.
A mãe adotiva de Nix parece ter sido capaz de recriar, mesmo com uma criança que não nasceu dela, aquele vínculo primordial de identificação plena. As histórias que ela cria não são cheias de insights úteis para as famílias adotivas ou de imagens sociologicamente relevantes, nem primam pela excelência estilística; são as palavras de que Nix necessita para fazer existir sua experiência em tantos sentidos inominável.
Essa necessidade de dar forma aos conflitos de que é feita se explicita no modo como a menina lê os bandos (e os pequenos grupos) de aves migratórias que ela vê no céu da Espanha. Também aparece com força dramática quando a brincadeira deliciosamente criativa de chamar o futuro irmãozinho da amiga Kim de 'Kom', ecoando a sonoridade e o vínculo do seu próprio nome (Nix) com o de sua irmã (Nox), se transforma em insulto e violência, personificados no monstro King-Kong.
Da mesma forma, a repetição de temas e situações, longe de ser um defeito na estruturação da narrativa ou uma imperícia da autora, parece indicar um comportamento que se impõe a Nix, nesse momento, como uma necessidade: ela está presa nesse início em que mãe e bebê são uma coisa só, porque não pode se diferenciar de um outro que já não está presente, que não existe. A mãe adotiva faz (muito bem, é preciso dizer) o papel daquele que cuida, mas não é dela que Nix precisa se separar.
Num primeiro momento, é disso que o bebê precisa. Mas aos poucos, conforme vai construindo sua experiência (e, nela, a si mesmo e ao mundo), as necessidades da criança mudam. Ela já não precisa de alguém que satisfaça seus desejos antes mesmo que eles sejam formulados. Ela precisa de espaço (e de tempo) para agir sobre o mundo, para se frustrar e superar a frustração. E é exatamente isso que os pais 'imperfeitos', apenas bons-o-bastante, oferecem.
A mãe adotiva de Nix parece ter sido capaz de recriar, mesmo com uma criança que não nasceu dela, aquele vínculo primordial de identificação plena. As histórias que ela cria não são cheias de insights úteis para as famílias adotivas ou de imagens sociologicamente relevantes, nem primam pela excelência estilística; são as palavras de que Nix necessita para fazer existir sua experiência em tantos sentidos inominável.
Essa necessidade de dar forma aos conflitos de que é feita se explicita no modo como a menina lê os bandos (e os pequenos grupos) de aves migratórias que ela vê no céu da Espanha. Também aparece com força dramática quando a brincadeira deliciosamente criativa de chamar o futuro irmãozinho da amiga Kim de 'Kom', ecoando a sonoridade e o vínculo do seu próprio nome (Nix) com o de sua irmã (Nox), se transforma em insulto e violência, personificados no monstro King-Kong.
Da mesma forma, a repetição de temas e situações, longe de ser um defeito na estruturação da narrativa ou uma imperícia da autora, parece indicar um comportamento que se impõe a Nix, nesse momento, como uma necessidade: ela está presa nesse início em que mãe e bebê são uma coisa só, porque não pode se diferenciar de um outro que já não está presente, que não existe. A mãe adotiva faz (muito bem, é preciso dizer) o papel daquele que cuida, mas não é dela que Nix precisa se separar.
[ Não é à toa que um dragão perseguiu o avião que carregava Nix e sua nova família da China para a Espanha por se sentir roubado, privado de um tesouro infinitamente precioso. Esse tesouro, essa pérola na garganta do dragão, é a integridade da situação inicial, na qual reside a possibilidade de elaboração, de resolução. ]
Nesse sentido, a irrelevância da figura paterna na narrativa pode não ser um descuido ou omissão da autora, que dessa vez estaria em falta não com a técnica da escrita literária, mas com a responsabilidade social do escritor, com os efeitos do seu produto cultural (o romance) sobre a realidade. Mas a equação de Nix já é complexa demais. A mãe adotiva aparece nessa equação representando a família que acolhe, do mesmo modo que, no caminho de volta à barriga, Nix tem como guia o cuco: este, sendo do gênero masculino, representa todos os indivíduos adultos da sua espécie, aqueles que estão no papel do cuidador, ainda que por vezes não o exerçam a contento. Além disso, ainda no âmbito de influência da psicanálise, o pai é aquele que traz para casa o princípio de realidade e, portanto, aponta para o que ainda não existe, para o que está além do ponto final desta história.
*
Para concluir essas reflexões, é interessante notar o contraste que se estabelece entre a constelação feminina em que brilha Nix e o mundo de efetividade masculina em que cintila Nim, personagem criado por Wendy Orr em 'A ilha de Nim' [2]. Neste último, uma garota encantadoramente capaz de atuar no mundo de forma resolutiva pede ajuda a alguém que ela pensa ser ainda mais capaz do que ela (e mesmo do que o seu pai): o herói. Mas o que o mundo (mundo mundo, sábio mundo) lhe devolve não é o que ela quer, mas aquilo de que ela precisa...
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[1] Uma vida para seu filho: pais bons o bastante. Tradução de Maura Sardinha. RJ: Campus, 1988.
[2] A ilha de Nim. Ilustrações de Kerry Millard. Tradução de Maria José Silveira. SP: BrinqueBook, 2008.
[2] A ilha de Nim. Ilustrações de Kerry Millard. Tradução de Maria José Silveira. SP: BrinqueBook, 2008.
