21.6.14

Para Tânia

– sobre '****inho do *** ****inho' (2014) --

O livro de SNF apresenta de forma exemplar um bom número de traços em que a gente reconhece a crença de que 'escrever pra crianças é fácil'.

what you see is what you get

Na capa já estão explícitas algumas dessas características:
  • o foco no pitoresco (no caso, as tradições gaúchas) submetido à simplificação e ao exagero: a caricatura perde, aqui, todo o caráter de crítica, de revelação do real, e apresenta ao leitor um mundo que, apesar de colorido e sombreado, é apenas superfície;
  • a presença de crianças como isca para fisgar o leitor desejado através da identificação;
  • o milagre da multiplicação dos diminutivos;
  • o adulto (tio Bentinho, sim, mas também os autores do livro) como portador de uma mensagem que, por ser 'boa', encanta as crianças (sendo que os personagens modelam, para a criança leitora, o comportamento esperado por parte do receptor dessa mensagem).

O texto da quarta capa também é pródigo em sinais. Nele a autora invoca um certo 'mundo da imaginação', entidade abstrata que serve para avalizar, de uma só vez e de uma vez por todas, a obra, seu apelo junto às crianças e seu tema (os causos): o 'lençol arquétipo' da fabulação alimenta não só os contadores de causos mas também a autora. Em seguida, há um esforço no sentido de concretizar essa abstração, indicando com precisão as coordenadas geográficas da narrativa. O objetivo declarado de 'democratizar a cultura sul-rio-grandense' procura conquistar pais e educadores, enquanto a caracterização da obra como 'um continho lúdico e redondinho' reafirma a sua adequação ao público infantil.

once inside...

A história em si parece ser apenas um pretexto para apresentar o 'inventário linguístico gaúcho', como explicita a autora em dedicatória. Comparecem também a descrição da indumentária, de objetos e atividades típicas, mas esses elementos não contribuem para construir nem situações nem personalidades singulares.

O livro todo evidencia uma falta de lastro, de bagagem, de experiência leitora e mesmo de aprofundamento na tradição:
  • uso indiscriminado dos pontos de exclamação e dos adjetivos
  • a contação de causos é costumeira em diversas tradições. quais seriam as particularidades dessa atividade na cultura gaúcha?
  • mote & glosa: o exemplo relatado não faz juz à arte da improvisação. quais seriam as características de um bom causo?
  • poema: por que foi incluído na história? o tema? a forma?
  • 'Um apólogo': será que houve a intenção de 'citar' o Machado de Assis?
  • história dentro da história dentro da história: não há firmeza na estruturação da narrativa e, em algumas ocasiões, o narrador do causo se confunde com o narrador da história mais abrangente.
Parece haver uma recusa de 'artifícios' como a revisão minuciosa, o planejamento, a pesquisa, a reescrita, como se eles pudessem comprometer a espontaneidade, que seria uma característica importante do universo da criança.

Apesar do objetivo declarado de 'democratizar a cultura sul-rio-grandense', este livro não ajuda uma pessoa pouco familiarizada a se aproximar dessa tradição. Pelo contrário, a lógica da narrativa parece ter sido negligenciada para criar mais oportunidades de inclusão de regionalismos, a ponto de comprometer a própria inteligibilidade do texto, principalmente para leitores em formação. Nesse sentido, fica favorecida a hipótese do solipsismo (Sig!), ou sejam este livro parece ter sido construído apenas para que a gente se enxergue nele e se sinta valorizado por isso: o autor gaúcho, as crianças gaúchas, a família gaúcha, a escola gaúcha.

Acredito que a presença de ilustrações 'redundantes', tão prejudicial na maioria das vezes, seria interessante aqui. Poderia fazer nascer um livro informativo em que as crianças de outras regiões pudessem visualizar o pampa, a indumentária, os apetrechos. E nos daria a oportunidade de um comentário positivo. Pena.


-------------------------
Escrito depois que a Tânia P. terceirizou a tarefa de realizar uma 'leitura avaliativa' de uma série de livros autopublicados, a pedido da autora.