– sobre '****inho do *** ****inho' (2014) --
O livro de SNF apresenta
de forma exemplar um bom número de traços em que a gente reconhece
a crença de que 'escrever pra crianças é fácil'.
what you see is what
you get
Na capa já estão
explícitas algumas dessas características:
- o foco no pitoresco (no caso, as tradições gaúchas) submetido à simplificação e ao exagero: a caricatura perde, aqui, todo o caráter de crítica, de revelação do real, e apresenta ao leitor um mundo que, apesar de colorido e sombreado, é apenas superfície;
- a presença de crianças como isca para fisgar o leitor desejado através da identificação;
- o milagre da multiplicação dos diminutivos;
- o adulto (tio Bentinho, sim, mas também os autores do livro) como portador de uma mensagem que, por ser 'boa', encanta as crianças (sendo que os personagens modelam, para a criança leitora, o comportamento esperado por parte do receptor dessa mensagem).
O texto da quarta capa também é pródigo em sinais. Nele a autora invoca um certo 'mundo da imaginação', entidade abstrata que serve para avalizar, de uma só vez e de uma vez por todas, a obra, seu apelo junto às crianças e seu tema (os causos): o 'lençol arquétipo' da fabulação alimenta não só os contadores de causos mas também a autora. Em seguida, há um esforço no sentido de concretizar essa abstração, indicando com precisão as coordenadas geográficas da narrativa. O objetivo declarado de 'democratizar a cultura sul-rio-grandense' procura conquistar pais e educadores, enquanto a caracterização da obra como 'um continho lúdico e redondinho' reafirma a sua adequação ao público infantil.
once inside...
A história em si parece
ser apenas um pretexto para apresentar o 'inventário linguístico
gaúcho', como explicita a autora em dedicatória. Comparecem também
a descrição da indumentária, de objetos e atividades típicas, mas
esses elementos não contribuem para construir nem situações nem
personalidades singulares.
O livro todo evidencia
uma falta de lastro, de bagagem, de experiência leitora e mesmo de
aprofundamento na tradição:
- uso indiscriminado dos pontos de exclamação e dos adjetivos
- a contação de causos é costumeira em diversas tradições. quais seriam as particularidades dessa atividade na cultura gaúcha?
- mote & glosa: o exemplo relatado não faz juz à arte da improvisação. quais seriam as características de um bom causo?
- poema: por que foi incluído na história? o tema? a forma?
- 'Um apólogo': será que houve a intenção de 'citar' o Machado de Assis?
- história dentro da história dentro da história: não há firmeza na estruturação da narrativa e, em algumas ocasiões, o narrador do causo se confunde com o narrador da história mais abrangente.
Parece haver uma recusa
de 'artifícios' como a revisão minuciosa, o planejamento, a
pesquisa, a reescrita, como se eles pudessem comprometer a
espontaneidade, que seria uma característica importante do universo
da criança.
Apesar do objetivo
declarado de 'democratizar a cultura sul-rio-grandense', este livro
não ajuda uma pessoa pouco familiarizada a se aproximar dessa
tradição. Pelo contrário, a lógica da narrativa parece ter sido
negligenciada para criar mais oportunidades de inclusão de
regionalismos, a ponto de comprometer a própria inteligibilidade do
texto, principalmente para leitores em formação. Nesse sentido,
fica favorecida a hipótese do solipsismo (Sig!), ou sejam este livro
parece ter sido construído apenas para que a gente se enxergue nele
e se sinta valorizado por isso: o autor gaúcho, as crianças
gaúchas, a família gaúcha, a escola gaúcha.
Acredito que a presença
de ilustrações 'redundantes', tão prejudicial na maioria das
vezes, seria interessante aqui. Poderia fazer nascer um livro
informativo em que as crianças de outras regiões pudessem
visualizar o pampa, a indumentária, os apetrechos. E nos daria a
oportunidade de um comentário positivo. Pena.
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Escrito depois que a Tânia P. terceirizou a tarefa de realizar uma 'leitura avaliativa' de uma série de livros autopublicados, a pedido da autora.