Companhia das Letras, 2016
A
leitura volta e meia pede que a gente olhe a foto na orelha do livro: o olhar
duro, a cara de brava. A narradora que insiste em dizer que o protagonista é o
outro. Ou os outros — na
verdade, as outras — do
outro.
Os personagens são falíveis, pequenos, e fracassam em suas
pretensões e planos. Os que pensam que são ‘fortes’ (os homens?) morrem sem
nunca ter visto, ouvido, reconhecido o outro (a esposa, as garotas de programa,
a interlocutora que narra).
Antes
de alcançar a página 50, encontro um parágrafo que me lembra Futuros amantes, por falar Rio com
intimidade e por falar do presente com um afeto nostálgico. Mais para o fim, aparece
a graúna (apelido do casal para a mãe da Lola): lembro os espelhinhos da casa
do JP rabiscados com a Graúna do Henfil (presente duradouro da Luíza) e o choro
do João Pernambuco que tento tocar ao anoitecer.
A
explicitação da ideia de palimpsesto só vem na página 178, depois que a
narrativa já estabeleceu tal noção de forma sólida e sutil.
Tanto
a repetição de comportamentos e atitudes quanto a tentativa de dividir a vida
em metades diferentes são estratégias de apagamento do outro (do novo, do
desconhecido) e de controle sobre o mundo. Mas, entre uma repetição e outra,
entre uma metade e outra, sobram sinais, ocorrem vazamentos, existe a
contaminação. Os contornos se confundem: vemos sempre um perfil velado sob cada
rosto e todos os corpos ocupam o mesmo espaço, são descritos pela mesma língua.
(propriedade e pertencimento: penso no meu apartamento mobiliado pelo antigo
morador, nas minhas roupas de segunda mão, nos livros comprados em sebo, na minha
memória que só enxerga vultos) Não me lembro de ler a palavra ‘memória’.
Mas o que realmente me conquista é a autoria inadvertidamente compartilhada — de uma narrativa, de uma vida. Fragmentos.
Estruturas (recorrências, ritmos) adivinhadas ou inventadas: o caminho de ida e
o retorno, a amarelinha de eneidas (que também remete ao jogo proposto pelo Cortázar).

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