Título: Eloísa e os bichos
Autor: Jairo Buitrago
Ilustração: Rafael Yockteng
Tradução: Márcia Leite
Editora: Pulo do Gato, 2013
Acho Eloísa e os bichos um livro propositadamente difícil. Misturar o familiar com o estranho ou o estrangeiro quase nunca é fácil. Ao mesmo tempo, essa mistura indigesta faz parte da experiência de muita gente e pode, desse modo, ser lida como uma situação conhecida, com a qual podemos nos identificar. É o que sentimos ao ouvir somente as palavras da história contada pela Eloísa, que são de uma simplicidade exemplar:
Eu não sou daqui.Mas os autores parecem ter aceitado o desafio de ver o mundo com os olhos da pequena Eloísa e levaram rigorosamente a sério o fato dela se sentir 'um bicho estranho'✭. A complexidade que as ilustrações trazem para a história é um tributo à riqueza do mundo interno da criança e à fecundidade de suas relações com o mundo.
Chegamos numa tarde, quando eu era bem pequena.
Enquanto papai procurava trabalho, eu ia para a escola...
... e me sentia um bicho estranho.
No início, era difícil não ser tão habilidosa nas tarefas
e ser a mais baixinha da fila.
Os recreios eram muito longos,
tão demorados como ficar esperando papai chegar na hora da saída.
Voltávamos para casa sem falar com ninguém
e alguma vezes nos perdíamos pela cidade,
mas foi assim que aprendemos a conhecê-la.
Com o passar do tempo, já sabia o caminho até a escola
e não me importava quando papai ia embora,
porque os dias passavam mais depressa.
Pouco a pouco, começamos a nos sentir em casa,
mas nunca nos esquecemos de tudo o que deixamos para trás.
Eu sei que não nasci aqui... mas foi neste lugar que aprendi a viver.
O produto final traz muitos elementos que reconhecemos: atravessamos as ruas da cidade com segurança porque entendemos a sinalização de trânsito. Conseguimos fazer compras porque, ainda que a moeda seja outra, o princípio que rege a circulação de mercadorias é nosso velho conhecido. A escola está lá: as rotinas, os papéis sociais, as expectativas que apreciamos e também as que nos desgostam. E -- um fato importante -- em muitas cenas, os bichos aparecem em família. Mas ao mesmo tempo, tudo é estranho e essa estranheza satura os nossos sentidos; a realidade vivida parece um turbilhão que chacoalha e atordoa com seus inúmeros e fascinantes detalhes, com sua novidade e sua riqueza.
Outros traços ajudam a potencializar a sensação de uma realidade que nos leva de arrasto, de uma vida que não se detém para mitigar a nossa perplexidade. Por exemplo, as ilustrações sangradas por toda a página, sem espaço reservado para o texto, indicam que o narrador (e junto com ele o leitor) está totalmente imerso na história, carecendo do distanciamento proporcionado por margens, bordas ou um narrador onisciente e didático.
Não é à toa que o 'bichos estranhos' são insetos: a distância filogenética entre nós e eles é maior do que a nos separa dos outros mamíferos, das aves ou mesmo dos répteis. Muitos insetos são considerados pragas; misturar-se com eles não parece uma boa ideia e não se pode esquecer que um dos índices da estigmatização dos latino-americanos nos EUA é o termo 'cucaracha', pelo qual somos conhecidos.
Mas neste livro, o carinho com que esses animais exóticos foram desenhados em toda sua variedade e exuberância é uma pista que nos leva a respeitá-los; assim fica mais fácil gostar deles. O mais difícil para mim foi não conseguir ler as expressões faciais dos bichos: sem essa modulação que costuma indicar movimentos da vida interior e sentimentos com os quais podemos nos identificar, a empatia não tem pontos externos onde se apoiar e a gente precisa (assim como a Eloísa precisou) se valer de uma confiança básica, interna, no mundo✭✭.
As fotos que aparecem nas guardas, nas mãos de uma Eloísa crescida, funcionam como memória auxiliar ou registro do que já foi, claro, mas também como oportunidade de afinar o olhar e mudar de ponto de vista (comparando as fotos da abertura com as do final e observando a cena da página 33), além de ajudar o leitor a considerar a dimensão do tempo, imaginando um futuro para a pequena Eloísa a partir das pistas mostradas nas imagens.
A história parece sugerir, assim, que há um trabalho a realizar: se tudo acaba bem é porque a protagonista mudou e, nesse processo (que leva tempo e para o qual não existem atalhos), mudou também o seu contexto.
🐛
Os meninos encaram as dificuldades propostas pela obra com paciência, um pouco de cada vez. Procuramos ler no sofá ou em outro lugar aconchegante e eles se concentraram bastante nas poucas ocasiões em que lemos o livro inteiro juntos. Fazem algumas perguntas mas deixam a maior parte das falas para mim. Não sei se identificam com a Eloísa ou se a história ajuda a dar forma a vivências ou sentimentos próprios. Mas tudo isso vai estar no repertório deles quando em breve estiverem conhecendo um novo país, uma nova língua e muitas pessoas diferentes. Tomara que sirva.
Notas:
✭ Devem estar seguindo os preceitos do Gianni Rodari, na Gramática da Fantasia (Summus, de preferência as primeiras edições, que têm a capa da Edith Derdyk): Sumário, tietagem e leitura ilustrada.
✭✭ Ver Contardo Calligaris. Nova Orleans e a confiança básica no mundo. Ilustrada, FSP, 08/09/2005
Outros links:
✭ Release do livro, pela editora
✭ Indicação de leitura, pel'A Taba
✭ Dicas de mediação de leitura, pelo Livro Aberto



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