14.7.18

Um estranho numa terra estranha











Título: Eloísa e os bichos
Autor: Jairo Buitrago
Ilustração: Rafael Yockteng
Tradução: Márcia Leite
Editora: Pulo do Gato, 2013


Acho Eloísa e os bichos um livro propositadamente difícil. Misturar o familiar com o estranho ou o estrangeiro quase nunca é fácil. Ao mesmo tempo, essa mistura indigesta faz parte da experiência de muita gente e pode, desse modo, ser lida como uma situação conhecida, com a qual podemos nos identificar. É o que sentimos ao ouvir somente as palavras da história contada pela Eloísa, que são de uma simplicidade exemplar:
Eu não sou daqui.
Chegamos numa tarde, quando eu era bem pequena.
Enquanto papai procurava trabalho, eu ia para a escola...
... e me sentia um bicho estranho.
No início, era difícil não ser tão habilidosa nas tarefas
e ser a mais baixinha da fila.
Os recreios eram muito longos,
tão demorados como ficar esperando papai chegar na hora da saída.
Voltávamos para casa sem falar com ninguém
e alguma vezes nos perdíamos pela cidade,
mas foi assim que aprendemos a conhecê-la.
Com o passar do tempo, já sabia o caminho até a escola
e não me importava quando papai ia embora,
porque os dias passavam mais depressa.
Pouco a pouco, começamos a nos sentir em casa,
mas nunca nos esquecemos de tudo o que deixamos para trás.
Eu sei que não nasci aqui... mas foi neste lugar que aprendi a viver.
Mas os autores parecem ter aceitado o desafio de ver o mundo com os olhos da pequena Eloísa e levaram rigorosamente a sério o fato dela se sentir 'um bicho estranho'. A complexidade que as ilustrações trazem para a história é um tributo à riqueza do mundo interno da criança e à fecundidade de suas relações com o mundo.

O produto final traz muitos elementos que reconhecemos: atravessamos as ruas da cidade com segurança porque entendemos a sinalização de trânsito. Conseguimos fazer compras porque, ainda que a moeda seja outra, o princípio que rege a circulação de mercadorias é nosso velho conhecido. A escola está lá: as rotinas, os papéis sociais, as expectativas que apreciamos e também as que nos desgostam. E -- um fato importante -- em muitas cenas, os bichos aparecem em família. Mas ao mesmo tempo, tudo é estranho e essa estranheza satura os nossos sentidos; a realidade vivida parece um turbilhão que chacoalha e atordoa com seus inúmeros e fascinantes detalhes, com sua novidade e sua riqueza.


Outros traços ajudam a potencializar a sensação de uma realidade que nos leva de arrasto, de uma vida que não se detém para mitigar a nossa perplexidade. Por exemplo, as ilustrações sangradas por toda a página, sem espaço reservado para o texto, indicam que o narrador (e junto com ele o leitor) está totalmente imerso na história, carecendo do distanciamento proporcionado por margens, bordas ou um narrador onisciente e didático.

Não é à toa que o 'bichos estranhos' são insetos: a distância filogenética entre nós e eles é maior do que a nos separa dos outros mamíferos, das aves ou mesmo dos répteis. Muitos insetos são considerados pragas; misturar-se com eles não parece uma boa ideia e não se pode esquecer que um dos índices da estigmatização dos latino-americanos nos EUA é o termo 'cucaracha', pelo qual somos conhecidos.

Mas neste livro, o carinho com que esses animais exóticos foram desenhados em toda sua variedade e exuberância é uma pista que nos leva a respeitá-los; assim fica mais fácil gostar deles. O mais difícil para mim foi não conseguir ler as expressões faciais dos bichos: sem essa modulação que costuma indicar movimentos da vida interior e sentimentos com os quais podemos nos identificar, a empatia não tem pontos externos onde se apoiar e a gente precisa (assim como a Eloísa precisou) se valer de uma confiança básica, interna, no mundo.


As fotos que aparecem nas guardas, nas mãos de uma Eloísa crescida, funcionam como memória auxiliar ou registro do que já foi, claro, mas também como oportunidade de afinar o olhar e mudar de ponto de vista (comparando as fotos da abertura com as do final e observando a cena da página 33), além de ajudar o leitor a considerar a dimensão do tempo, imaginando um futuro para a pequena Eloísa a partir das pistas mostradas nas imagens.

A história parece sugerir, assim, que há um trabalho a realizar: se tudo acaba bem é porque a protagonista mudou e, nesse processo (que leva tempo e para o qual não existem atalhos), mudou também o seu contexto.

🐛

Os meninos encaram as dificuldades propostas pela obra com paciência, um pouco de cada vez. Procuramos ler no sofá ou em outro lugar aconchegante e eles se concentraram bastante nas poucas ocasiões em que lemos o livro inteiro juntos. Fazem algumas perguntas mas deixam a maior parte das falas para mim. Não sei se identificam com a Eloísa ou se a história ajuda a dar forma a vivências ou sentimentos próprios. Mas tudo isso vai estar no repertório deles quando em breve estiverem conhecendo um novo país, uma nova língua e muitas pessoas diferentes. Tomara que sirva.



Notas:
 Devem estar seguindo os preceitos do Gianni Rodari, na Gramática da Fantasia (Summus, de preferência as primeiras edições, que têm a capa da Edith Derdyk): Sumário, tietagem e leitura ilustrada.
✭✭ Ver Contardo Calligaris. Nova Orleans e a confiança básica no mundo. Ilustrada, FSP, 08/09/2005


Outros links:
Release do livro, pela editora
Indicação de leitura, pel'A Taba
Dicas de mediação de leitura, pelo Livro Aberto



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