A leitura de Eloísa e os bichos fica ainda mais instigante quando temos a oportunidade de contrastá-lo com este outro livro. São os mesmos autores, a mesma tradutora e a mesma editora, mas desta vez Jairo e Rafael apostam num retrato mais realista para apresentar as paisagens, pessoas e situações complexas, marcadas pela incerteza, que compõem a experiência da imigração clandestina.
Desta vez, o ponto de vista da criança garante para o leitor uma história concisa, sem grandes explicações, um discurso que não menciona (mas também não apaga) o espectro todo das coisas que ela não sabe pôr em palavras, das coisas que ninguém discute com ela. Mas nas ilustrações, o leitor (e, temos certeza, também a menina que narra) pode ler o desafio imposto por um ambiente infinitamente belo e inóspito, a arbitrariedade da lei, o perigo e a ameaça de violência, a pobreza material, o isolamento, a carência de raízes e laços sociais duradouros, esses elementos da vida de quem está a caminho.
Num outro mundo, os brinquedos que ela teve que deixar para trás (e que constituem as guardas que 'amarram' o livro) são a marca do enraizamento, de uma estética e uma técnica tradicionais, e representam as pessoas familiares, a família de origem. A mesma disposição para aproveitar os refugos do trabalho e do consumo para construir instrumentos de jogo e prazer aparece nas brincadeiras com um menino morador de uma vila no caminho da menina.
Desta vez, o ponto de vista da criança garante para o leitor uma história concisa, sem grandes explicações, um discurso que não menciona (mas também não apaga) o espectro todo das coisas que ela não sabe pôr em palavras, das coisas que ninguém discute com ela. Mas nas ilustrações, o leitor (e, temos certeza, também a menina que narra) pode ler o desafio imposto por um ambiente infinitamente belo e inóspito, a arbitrariedade da lei, o perigo e a ameaça de violência, a pobreza material, o isolamento, a carência de raízes e laços sociais duradouros, esses elementos da vida de quem está a caminho.
Num outro mundo, os brinquedos que ela teve que deixar para trás (e que constituem as guardas que 'amarram' o livro) são a marca do enraizamento, de uma estética e uma técnica tradicionais, e representam as pessoas familiares, a família de origem. A mesma disposição para aproveitar os refugos do trabalho e do consumo para construir instrumentos de jogo e prazer aparece nas brincadeiras com um menino morador de uma vila no caminho da menina.
Título: Para onde vamos
Autor: Jairo Buitrago
Ilustração: Rafael Yockteng
Tradução: Márcia Leite
Editora: Pulo do Gato, 2013
Desde o começo, nós leitores somos convidados a participar: "Quando viajamos", diz a menina, "vou contando tudo que vejo". Na próxima página dupla, não há palavras e os autores sabem que criança nenhuma vai resistir a contar as (belas) galinhas e os (belos) pintinhos que ciscam por ali. Já os (belos) coiotes que aparecem por todo lado falam ao adulto que também lê, esse adulto que percebe a situação de violência que permeia a trajetória dos ilegais (apesar da beleza e da poesia, um pouco como em A Vida é Bela) e que pode escolher dividir ou não essa informação com a sua criança.
No meu caso, a leitura lembrou uma canção que há muito tempo eu não ouvia e que também trabalha linguagens diferentes (neste caso, música e letra) para compor uma poética do deslocamento e do (não) pertencimento. A letra, traduzida um tanto livremente, está guardada aqui.
Para a menina, contar o que vê parece ajudar a achar um lugar para cada coisa, configurando um sentido para o mundo e os fatos que ela precisa elaborar tão rápido e tão cedo. Mas o que é realmente precioso para ela é a amizade que consegue construir com uma outra criança ("um! Apenas um...") e o presente vivo que recebe desse amigo antes de voltar para a estrada. Os dois coelhos brancos apontam para a capacidade de cuidado da menina (e de todo ser humano), nos falam de fertilidade e da promesssa de algo novo e imprevisível, ainda que continuem a existir o solo árido, as cercas e a intolerância.
No meu caso, a leitura lembrou uma canção que há muito tempo eu não ouvia e que também trabalha linguagens diferentes (neste caso, música e letra) para compor uma poética do deslocamento e do (não) pertencimento. A letra, traduzida um tanto livremente, está guardada aqui.
Para a menina, contar o que vê parece ajudar a achar um lugar para cada coisa, configurando um sentido para o mundo e os fatos que ela precisa elaborar tão rápido e tão cedo. Mas o que é realmente precioso para ela é a amizade que consegue construir com uma outra criança ("um! Apenas um...") e o presente vivo que recebe desse amigo antes de voltar para a estrada. Os dois coelhos brancos apontam para a capacidade de cuidado da menina (e de todo ser humano), nos falam de fertilidade e da promesssa de algo novo e imprevisível, ainda que continuem a existir o solo árido, as cercas e a intolerância.




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