Para o Vincent
Respirei fundo e, mesmo estando muito nervoso, consegui dominar o impulso de coçar a orelha com o pé antes de abrir a porta. Sininho irritante. Me lembra os cães pastores das colinas do velho mundo, de onde vieram os nossos avós. O ar aqui dentro tem cheiro de forno a lenha e de pai e mãe de banho tomado.
Esperei aquele som perturbador desaparecer e agarrei a tabuleta que estava pendurada na janela. Em giz laranja berrante, o anúncio gritava: VAGA PARA CANTOR OU BANDA. Ótimo! Isso quer dizer que eles precisam de um provedor de entretenimento musical digestivo. Sou super qualificado. Fui logo perguntando: “Cadê o gerente?”
(Isso tudo antes que alguém me oferecesse um aperitivo, porque é difícil resistir e a minha voz é mais satisfatória quando estou insatisfeito).
O gerente apareceu enxugando as mãos no avental. Mão na massa, bom sinal. Quando ele disse: “Vamo lá, sem tempo pra audição mermão...”, nem precisei limpar a garganta — a canção correu solta. Mas logo veio a decepção: mal comecei a entoar ♪ se um veleiro repousasse na palma da minha mão… ♪ e o gerente já me interrompeu, dizendo que aquilo era “muito melancólico e aqui dentro não entra nada que faça pensar em cólica! Como se não bastasse a senhora celíaca que veio reclamar outro dia… Sim, ALcOólicos tudo bem, deixam o povo feliz e o caixa no azul e blá blá blá…” Não entendi nada, mas parecia assunto sério.
Uma pena. Nem tive chance de cantar ♪ me arremessando contra o caaaaaaais ♪ e mostrar todos os meus recursos vocais!
Porque essa música, você sabe, é uma armadilha para os amadores. O sujeito começa confiante e quando chega no ♪ rimas de ventos e velas ♪, dá-lhe um frio na barriga... Ele sabe que não vai alcançar a ♪ A solidão que fica e entra… ♪ E basta um escorregão ali pra tudo desandar, como se o pizzaiolo jogasse a massa para o alto e ela acabasse no chão, já pensou? Mas eu, que passei a juventude inteira fazendo serenatas pra lua, ia tirar de letra.
E falando em letra, outra razão para eu ser contratado: essa canção é filosófica, faz o cara ficar ruminando. Aposto que ia ajudar os clientes na digestão.
Sei lá. O importante era não desanimar. E eu tinha deixado o melhor do repertório pro final. Todo mundo gosta de Rita Lee. Meu primo — já te contei? — tem uns óculos redondinhos tão legais e eu, muito esperto, perguntei: “É do John Lennon isso aí?” E ele: “Nada, copiei da Rita Lee!”. Então eu fui pesquisar o repertório dessa senhora. E encontrei essa música que começa com barulho de vento e diz ♪ venha me beijar, meu doce vampiro… ♪
Desatei a cantar para o gerente, mas nem consegui emplacar o meu ♪ uouoúúúúú ♪ triunfal. Esse infame ex-futuro empregador, improvável mecenas dos artistas desenganados, me interrompeu de novo, com umas perguntas totalmente preconceituosas e caretas… Porque quem disse que lobisomem não pode se relacionar com vampiro, não é mesmo? Mas ele saiu falando que tinha lutado “para construir um restaurante de respeito, ambiente de família e tal e se começa a misturar alhos com bugalhos, onde é que esse mundo vai parar? e blá blá blá…” Parei de prestar atenção e saí com o rabo entre as pernas.
De forma que, meus amigos, não foi dessa vez que me tornei o primeiro lobisomem cantor de pizzaria desta parte do planeta. Mas talvez tenha sido coisa do destino: depois fiquei sabendo que eles se orgulham de usar apenas mozarela de búfala! Não dá pra se associar com quem explora a família da gente, certo? Então eu soltei o pouquinho de ar que ainda tinha no pulmão e parti pra outra.
Para ouvir o Jessé ♪♪
Para ouvir a Rita Lee ♪♪
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