Constante, certeira, a maré mede os meus dias. Companheira irrecusável, ela não faz alarde. Maré é gesto que não se percebe: é trapaça.
Maré da vida, que vai e vem, me trouxe ele uma vez.
— Nem eu!
— Nem eu!
— Tá com você, Manuel...
— Eu não, eu sou visita!
— E daí?
— Segura as carça pra não caí!
Meninada riu dele, que não entendeu coisa nenhuma. Mais tarde, quando a gente descansava na varanda, ele me perguntou. Falei a verdade.
— É caLça que fala, Manuel, com "L". CaRça é coisa de caipira.
— Ah, bom.
No dia seguinte, o menino chegou transformado:
— Tem aLmoço hoje, gente boa?
Tinha.
— A prima quer ir no clube, dançar uma vaLsa?
Queria. Muito.
Essa mudança fez ele parecer mais maduro, mais interessante.
O problema é que, junto com os acertos, vieram também alguns tropeços. Às vezes, no auge da empolgação, ele dizia coisas como "Passe o gaLfo, por favor" ou se gabava de usar a última edição da "BaLsa" para fazer as pesquisas escolares...
Não achei coragem pra corrigi-lo de novo.
Bem baixinho, na surdina, sempre tinha alguém que brincava: "Vamos ao paLque!" ou "Fecha a poLta!", "Não, deixa abeLta!"... Mas pra ele, mesmo, nunca dissemos nada.
Foi assim o verão todo. Logo começaram as aulas e a turma dispersou. Mais tarde, naquele mesmo ano, a família do Manuel se mudou para o Sul. Fiquei um bom tempo sem notícias.
A maré leva... mas de vez em quando acaba trazendo de volta.
Quando fui estudar em São José dos Campos, já na faculdade, reencontrei o Manuel. Maduro, interessante. Passamos dias lembrando os velhos tempos. Ele me contou que não demorou muito pra perceber o papel de bobo que tinha feito naquelas últimas férias. Doeu, disse ele. Mas passou.
— As provas já terminaram, Mari? Muito trabalho pra entregar, ainda?
— Olha, se aquele professor colaborar, semana que vem tô livre.
— A gente podia ir pra Ilhabela, o que você acha? É só descer até São Sebastião e pegar a balsa.
Não resisti.
— A enciclopédia, Manuel?
Foi embora sem se despedir. Acho que dessa vez nem tsunami traz ele de volta.
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