Antes de Cabral chegar, o Brasil não chamava Brasil. E, como você pode imaginar, não é desde sempre que eu me chamo Arengorê. Antes dessa história, na pré-história, eu era um simples Alexandre. Grande, como todos somos, mas só Alexandre.
Aliás, quem primeiro disse Arengorê foi o meu avô japonês, que não pronuncia o 'L'. Mas deixa eu contar do começo.
Era perto do Dia da Criança. O pai tinha conseguido um aumento e, na hora da janta, veio com a ideia:
— Este ano, vocês escolhem o presente!
Não sei como ele sobreviveu ao olhar fulminante da mãe, mas meu cérebro já começou a maquinar.
No dia seguinte, desenhei um caminhão de bombeiros — com escada e mangueira — no caderno de matemática. A lista dos gibis mais legais escrevi na capa do livro de português.
Na volta da escola, encontramos o cortejo do circo recém-chegado, anunciando os espetáculos do fim de semana. Eu e o Celso nos olhamos e, sem precisar dizer nada, já sabíamos qual seria o presente ideal.
A gente entrou em casa se atropelando, cada um querendo ser o primeiro a convencer o seu Jonas e a dona Zélia.
Ganhei.
— Mãe! Tem que ver é muito legal tem cavalo cachorro trapézio leão o cara aperta uma alavanquinha e bum! Lá atrás tem altas girafa e a zebra e o enormefante e…
Os meus irmãos não perdoaram. Eles nunca perdoam. Eles são imperdoáveis.
— Tem certeza que era um enormefante? Não seria um fracoiote?
— Era uma foformiga, tão bonitinha…
— Cuidado! A bravaca!
— Melhor correr! Vai que ela chama o braboi…
Resumo da ópera: luta romana. Como eu era o menor, sempre acabava imobilizado. E furioso. Mas no final a mãe ficou com pena e comprou os ingressos pra me animar.
A verdade é que não foi a primeira vez que eu me atrapalhei com as palavras. Quando queria compartilhar os resultados de uma expedição ao jardim, às vezes escapava um besourelho ou uma lesmolisa. Na cantina da escola, naquela confusão de gente gritando, às vezes eu pedia um sandidela, esquecendo o ixe e a morta. Se ele ainda vinha com algum recheio, era só porque comerciante não costuma ter senso de humor. Sorte minha. Outro dia, reclamei da salgatata e ganhei uma porção extra.
Então resolvi abraçar esse defeito de fabricação da minha língua (ou seria do pensamento?). Comecei a explicar pros meus pais que as anotações na caderneta eram culpa do atrasadônibus. E o Guga, que queria muito tirar a carta, pra mim era um mautorista.
Com o tempo, o pessoal de casa aderiu: a mãe só chamava o nosso quarto de bagunçarto. E “fulano ainda tá sujidente” era a caguetagem mais comum.
Mesmo assim, quando alguém perguntava de onde vinha esse vocabulário familiar enriquecido, o pai não deixava espaço pra dúvida:
— Nosso vitaminário? Quem começou foi o Alexandre. Esse menino engole as letras!
E foi desse jeito que eu nasci: Alê, o engole letras. Alengolê, para os íntimos.
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