26.12.18

Em Paris, na Amazônia


Nos telhados de Paris
Katherine Rundell
Tradução: Jefferson Luiz Camargo
WMF Martins Fontes, 2016
The Explorer
Katherine Rundell
Illustrations: Hannah Horn
Bloomsbury, 2017


Li Nos telhados de Paris em janeiro. Lembro de ter achado o texto condescendente, senti a autora talking down to me a bit.

Lembro também que a personagem principal era capaz de escalar prédios e se equilibrar na corda como que por mágica, ou por possuir um dom divino, um talento. Tive vontade de comparar essa abordagem (e principalmente a cena chave em que ela permanece imóvel no meio de uma travessia perigosa, sob uma tempestade) com outras (mais doídas e mais reais, ainda que calcadas na fantasia) encontradas em Corda Bamba, da Lygia Bojunga.

Em 17 de novembro, encontrei The Explorer e gostei muito! Deu vontade de procurar Três garotos na Amazônia, da Antonieta Dias de Moraes, do qual eu fiquei sabendo há uns vinte anos ao ler O imaginário no poder, da Jacqueline Held. Também é preciso retomar Nove noites, do Bernardo Carvalho, apesar de a comparação ser covardia.


Voltando à Katherine Rundell, tudo aqui é muito direto, sem rodeios. Em quatro páginas as quatro crianças nos são apresentadas e a situação estabelecida: estão perdidos na floresta. As informações sobre cada um dos envolvidos vão chegando aos poucos, sem perturbar a narrativa nem desviar o foco do problema imediato da sobrevivência e do retorno à cidade.

A narrativa soa transparente e por isso a floresta surge nítida, ainda que assustadora. A mesma franqueza parece marcar cada um dos personagens e as relações que estabelecem entre si.

É verdade que essa economia e comedimento, se tornam a leitura agradável e fluente, também causam algumas distorções. Basta olhar a lista de alimentos (bananas, mangas, coco, açaí e abacaxi) e de bichos (preguiça, jacaré, piranha, urubu, onça, boto cor de rosa) que participam da história.

Mas o percurso das crianças através da floresta, dos relacionamentos interpessoais e de alguns conflitos internos é muito convincente e interessante. O fato de nenhum dos personagens ser bonzinho e razoável o tempo todo sem cair numa infantilidade irritante (como às vezes acontece nos livros para jovens) contribui bastante para envolver o leitor.

As ilustrações registram a riqueza e a densidade do habitat acompanhando a sobriedade e a nitidez da narrativa, parecendo abraçar as palavras inicias de cada capítulo, um pouco como a floresta envolve tudo e todos que nela se aventuram. Lembra muito o trabalho da Elvira Vigna junto aO sofá estampado da Lygia Bojunga.


I especially cherish the epithets the explorer uses to talk about Max: young cacophony, the miniature cataclysm in the cardigan...

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