Autor: Elena Ferrante
Título: A amiga genial
Tradutor: Maurício Santana Dias
Série: Biblioteca Azul
Editora: Globo, 2015
A leitura começou com razões, digamos, gregárias: queria conversar com a Luíza, que na época estava entretida com a trilogia. Mas acabei estrabicamente focada nos meus próprios fantasmas. De forma que estas notas não fazem muita coisa além de ilustrar a minha psicodiâmica e por isso as pessoas sérias e os literatos podem -- devem -- deixar a sala. Até mais ver!
Recomeçando, então: a plebe, ou o vulgo, é uma espécie de cenário contra o qual brilha o protagonista.
No final das contas, me identifico um tanto com a Lena em seu exílio. Mas é apesar de mim mesma, porque me incomoda o fato de que o contexto mais abrangente não é sequer mencionado (é insignificante). E o foco no eu (ou no eu-e-ela) não significa aprofundamento. Fica na beirinha. Talvez seja isso: o eu-centrismo redunda em superficialidade, além de uma abrangência negligenciável. Será que ainda assim sobra alguma coisa capaz de justificar uma história? Será que é isso que me incomoda? Será que o que esse romance estabelece é que sou rasa e sem peso, que não faço diferença nenhuma no mundo porque ele não me afeta e, no limite, não existe?
No capítulo 59, Lena diz que, quando está com os amigos do bairro, precisa "se conter", "se autodegradar". Altiva, orgulhosa, parece que a mediocridade (o estar no meio do caminho) impede a modéstia, não consegue amainar a vaidade. Não é raro encontrar esse tipo de 'alienação' na literatura. Mas as semelhanças param por aí quando tentamos relacionar esse desconforto da personagem com a ligação ambígua entre o Lima Barreto e o subúrbio do Rio de Janeiro (ver Lima Barreto - Triste visionário, Lilia Moritz Schwarcz, Companhia das Letras, 2017) ou com o bairro do Gonçalo M. Tavares, uma construção que visa dar conta de um exílio como o descrito por Elena Ferrante.
Lena é capaz de dar um passo atrás e ver o que acontece no seu entorno como se fosse um espectador. Mas não é capaz de transfigurar essa realidade, nem de enxergar para além dela ou desvendá-la. Então sua capacidade intelectual é inútil.
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No capítulo 59, Lena diz que, quando está com os amigos do bairro, precisa "se conter", "se autodegradar". Altiva, orgulhosa, parece que a mediocridade (o estar no meio do caminho) impede a modéstia, não consegue amainar a vaidade. Não é raro encontrar esse tipo de 'alienação' na literatura. Mas as semelhanças param por aí quando tentamos relacionar esse desconforto da personagem com a ligação ambígua entre o Lima Barreto e o subúrbio do Rio de Janeiro (ver Lima Barreto - Triste visionário, Lilia Moritz Schwarcz, Companhia das Letras, 2017) ou com o bairro do Gonçalo M. Tavares, uma construção que visa dar conta de um exílio como o descrito por Elena Ferrante.
Lena é capaz de dar um passo atrás e ver o que acontece no seu entorno como se fosse um espectador. Mas não é capaz de transfigurar essa realidade, nem de enxergar para além dela ou desvendá-la. Então sua capacidade intelectual é inútil.
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