26.12.18

Gente estranha




A cidade da luz
Inio Asano
Tradução: Lídia Ivasa
Panini, 2017




A leitura pede algum esforço: a linguagem e a direcionalidade nos são estrangeiras e a aparência infantil de todos os personagens irrita --  justamente porque não me é estrangeira. Mas, uma vez soltas as amarras, a narrativa soa muito convincente, apesar de caricaturalmente sombria e povoada por adultos patéticos.

Tasuku é um heroi que cria uma nova profissão, respondendo a uma demanda crescente. Mas a sua atividade vai muito além do empreendedorismo juvenil: serve a um propósito. Chega ao cerne de um arranjo humano que, mesmo onde parece funcionar, canibaliza os de carne e osso.

Desdobramentos posteriores relativizam a figura de Tasuku como protagonista, quando a narrativa segue diversos personagens e exige do leitor um nível de atenção que está mais para Tolstoi do que para E. Ferrante (ref. pessoal, sem relevância para o mundo).

O que fica para mim, fechando essas notas de leitora não familiarizada com o gênero, é que por trás da limpeza esmerada existe sofrimento: eles são complexos e de certa forma ingênuos. As suas tragédias não parecem coisa do destino, ao contrário: soam patéticas e evitáveis. Talvez a chave esteja aqui, na necessidade imperativa de admitir que não há nenhuma diferença entre nós e eles.

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