24.2.19

Stoner





Autor: John Williams
Título: Stoner (1965)
Tradutor: Marcos Maffei
Editora: Rádio Londres, 2015 (2 ed.)



Gostei muito. A escrita é transparente; a tradução também. Quer dizer, a gente não se preocupa com a linguagem ou com a estrutura porque tudo flui e a atenção fica tomada pela história, pelas descrições evocativas e eficientes, pelo respeito dedicado ao personagem principal, tão prosaico e pálido aos olhos do mundo.

Os antagonistas, em contraste, ficaram um tanto caricatos. A dupla Walker-Lomax, por exemplo, parece estar lá para desqualificar toda ação inclusiva ou afirmativa no contexto da universidade, onde seria 'natural' a meritocracia. Alguns anos depois da publicação deste romance, explodiu o movimento de maio de 68. Dá pra entender então se ele foi considerado reacionário no conteúdo e conservador na forma. Se for este o caso, faz bem resgatá-lo agora.

Mas talvez não tenha sido esse o problema. Lendo hoje uma crítica sobre a recepção desta obra aqui no Brasil, fiquei me perguntando se o niilismo que o crítico enxergou nos textos dos colegas não tem a ver com a juventude (essa coisa maldita de que sofre o Tom Zé). Na minha visão simplificada de leigo, o julgamento sumário ao qual submetem a geração precedente, que consideram fraca e covarde, tem seu contrapondo na confiança que os jovens depositam nos próprios músculos -- e tanto faz se miosina ou tutano. Essa certeza de que serão capazes de realizar algo, senão tudo, acaba reservando aos que apenas viveram o rótulo do fracasso e impede (torna mesmo indesejável) um olhar mais nuançado e generoso. Não sei. Mas retorna forte a preguiça infinita de me engajar em qualquer luta no campo da poesia, de escolher lados ou declarar inimigos. Compreendo o poeta que não me franqueou o acesso às suas conversas na rede: realmente, eu não pertenço. Mas sinto uma coisa próxima da gratidão ao lembrar de como Dave Masters, personagem que morre jovem e já no segundo capítulo, fala da universidade: é para nós que ela existe, diz ele; "não para os estudantes, não para a busca desinteressada do conhecimento" (p.38). A universidade é "um asilo, um refúgio do mundo, para os despossuídos, os aleijados". Por isso é tão importante mantê-la livre de arrivistas e aventureiros como Charles Walker, por mais brilhantes que sejam.

Felizmente, retornando às notas, o narrador onisciente não tenta, e me parece uma forma de respeito, seguir os pensamentos e meandros da vida interior dos personagens. A súbita revelação da poesia, por exemplo, permanece um mistério diante do qual a gente apenas se espanta.

As últimas páginas são de uma delicadeza e de uma propriedade difíceis de igualar. Fico desejando um narrador assim para a minha vida. E, claro, a minha morte.

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