Vejo meu Silviano, tão surradinho, e penso: ele deve ter encontrado leitores bem antes de vir parar nas minhas mãos.
Talvez um leitor em particular tenha visitado repetidamente a livraria para conhecer o romance e poder comentá-lo com os amigos. Pode ser que, na primeira vez, ele tenha solicitado a ajuda de um vendedor, um rapaz que parecia confortável em seu avental amarelo e foi logo resgatar o livro de uma prateleira mais alta. Temo que, constatado o preço da mercadoria, ele (o leitor) tenha se dado conta de que não poderia levá-lo (o livro) para casa, fazer daquilo um relacionamento íntimo e duradouro. Talvez por isso ele tenha escondido o volume na prateleira de gastronomia, prometendo voltar em breve.
Talvez um leitor em particular tenha visitado repetidamente a livraria para conhecer o romance e poder comentá-lo com os amigos. Pode ser que, na primeira vez, ele tenha solicitado a ajuda de um vendedor, um rapaz que parecia confortável em seu avental amarelo e foi logo resgatar o livro de uma prateleira mais alta. Temo que, constatado o preço da mercadoria, ele (o leitor) tenha se dado conta de que não poderia levá-lo (o livro) para casa, fazer daquilo um relacionamento íntimo e duradouro. Talvez por isso ele tenha escondido o volume na prateleira de gastronomia, prometendo voltar em breve.
Nem imagino o que ele teve que fazer para resistir à tentação de anotar nas margens e sublinhar tantas passagens interessantes. Pode ter recorrido às notas num caderninho ou no smartphone. Mas estou certa de que foi ele quem atazanou a funcionária do setor de aquisições e, quando Machado passou a integrar o acervo da biblioteca universitária, foi também quem primeiro o levou de empréstimo e escreveu nas suas páginas.
Ainda na livraria, talvez ele tenha se levantado da poltrona meio mambembe para procurar o Memorial de Aires na seção de literatura brasileira. Ou uns contos do Flaubert, logo ali ao lado. As Crisálidas e as Falenas acho que ele não encontrou. Quem sabe num dia de semana, quando o canto das crianças fica às traças, ele não tenha ousado se sentar numa das cadeiras de plástico (a amarela, de pernas descascadas), espalhando sobre a mesinha volumes recolhidos em diversos nichos mas que, sob a influência do bruxo Santiago, formavam novas constelações?
Gosto dele, esse meu precursor. Tento adivinhar de onde ele veio e pra onde ele foi depois de ter visitado estas páginas com seus olhos e suas mãos. Bons ventos o levem.
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