Autor: Gilles Eduar
Título: Persifal e Dagobert
Editora: Martins Fontes, 2004
Um ilustrador-autor da melhor qualidade!
Talvez a nossa (a minha) percepção tenha se acostumado com a tinta (acrílica?) e as suas imperfeições, suas cores tão chapadas e seguras de si, mas este livro é irresistível. A opção de usar cores alternadas para o background, como nos quadrinhos, faz com que árvores, arbustos, pedras e até as nuvens (tão importantes na narrativa) assumam tonalidades absurdas e festivas. Enfatiza também o que há de frenético e impulsivo na ação -- e com isso acho que as crianças se identificam prontamente.
As guardas, em duas cores diferentes mas igualmente deliciosas, mostram o temperamento dos protagonistas e começam a contar a história. A referência aos desenhos animados aparece no modo como o leão arremessa a rã com sua superforça e nas engenhocas utilizadas por Persifal (que tem nome e honra de cavalheiro medieval) -- catapulta, trampolim, elástico. Aparece também no modo como ele se recupera de "acidentes" que deveriam ser fatais mas são apenas dolorosos (e engraçados, para o leitor).
Mas há outras referências, também: a bicilicóptera da toupeira lembra a máquina voadora do Leonardo DaVinci; ver Persifal transformado numa bola de argila faz pensar em homens-bala, mas também em formigueiros e cupinzeiros e dá vontade de pesquisar lendas e histórias tradicionais da savana africana; a imagem do cabo de guerra dos bichos contra a ventania dá vontade de reler a história judaica do grande rabanete; a ideia da industriosa e pequena aranha faz pensar em artifícios como as asas de cera de Ícaro... A própria dupla de protagonistas traz à memória as aventuras de Frog and Toad, do Arnold Lobel.
Finalmente, o crescente séquito de amigos que se divertem com as trapalhadas mas ajudam como podem, faz menção aos contos cumulativos e culmina numa celebração da amizade e da cooperação. A cena final soa como uma promessa de novas aventuras. Tomara.
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