23.2.19

Mistura fina

O que primeiro me ocorreu hoje foi uma dúvida a respeito das minhas leituras simultâneas e disparatadas (1). Mas em seguida o acaso me deu um presente, que chegou em duas partes. 

Para compor a primeira parte, no site da Ekaré encontrei uma resenha sobre Las visitas de Nani. Lá, a Ellen Duthie e a Raquel Martínez, cúmplices da autora Karishma Chugani Nankani, mencionam, entre outras coisas, como o livro, com seu texto e suas ilustrações carregados de cultura e saudade, invoca o cheiro do cardamomo (2).


A segunda parte surgiu em seguida, quando dei de cara com o trecho em que, no início do seu livro, Paul Zumthor fala da Idade Média como "lugar de ressonância de uma voz" e da voz humana como dimensão essencial do texto poético.


A mistura de registros, de sentidos, de modalidades de contato que transparece nesses exemplos nos fala bem de perto da inabarcável diversidade e da incrível complexidade da experiência humana. Talvez seja este justamente o grande presente, a sensação viva que queremos passar adiante quando procuramos cultivar pequenos leitores, o curto-circuito que os poetas (3) se empenham tão reiterada e apaixonadamente em nos oferecer. 

Será que essa multiplicidade que, na literatura, imita o que há de mais precioso na experiência das pessoas, pode de algum modo validar as leituras desconexas e potencialmente contraditórias que fazemos? Pretendo responder a essa pergunta com uma série de ensaios, todos com título e subtítulo:

. Sinestesia: aproximações entre a psicodelia e a literatura infantil

. Overwhelmed: como sobreviver à experiência do mundo e de quebra escrever sobre ela
  (overwhelmed é a minha palavra favorita. quase tanto quanto palimpsesto)

. Palimpsesto: a história de um papagaio em busca da sua voz

Quem viver lerá.


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(1) Como ouvir para o seu filho falar etc. (quem sabe os meninos voltam?), A letra e a voz (da série long overdue), O conto da aia (pra conversar com a Isabela), O oitavo selo (levei para ler na sala de espera do médico), Stoner (emprestado pelo trio Aline/João Paulo/Nelson) e Tin (porque sim).
(2) A inteligência, a integridade e o carinho das mulheres indianas que conheci há tantos anos em Long Island se misturam na minha memória ao aroma do chá de cardamomo que elas sabem fazer e gostam de compartilhar.
(3) Penso especialmente no Ricardo Domeneck, na Marília Garcia e na Angélica Freitas, da Modo de Usar.

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