21.2.19

Pesadelo

O motorista precisava se ausentar por alguma razão e eu me ofereci para ajudar. 

Propus que a gente se encontrasse no ponto logo depois do Diogo; eu estava certa de que poderia conduzir o ônibus até lá. Realmente, não tivemos problemas e a sensação de dirigir um veículo tão grande era boa. Pisei no freio e me preparei para descer e trocar de lugar com o motorista, que aliás não estava à vista, mas tudo bem, podíamos esperar ele aparecer. Mas o freio de mão não funcionou, ou eu não sabia acioná-lo; parecia que o ônibus não queria parar. Em vez disso, foi ganhando velocidade novamente e seguimos a rota normal daquela linha, parando nos pontos para que novos passageiros entrassem e esperando até que outros saíssem. A cada momento, eu revia minha decisão, em parte desejando ter insistido em esperar, em parte desejando chegar logo ao ponto final, me perguntando quais seriam as consequências dessa brincadeira para o motorista, mas incapaz de voltar atrás ou para ou mesmo diminuir a marcha.

O último trecho da rua, próximo ao viaduto sobre a rodovia, é um aclive acentuado e há carros estacionados dos dois lados. Tenho a sensação de que vou colidir e me aprumo no assento, tentando enxergar à frente, mas tudo trasncorre sem incidentes. Entramos num terminal abarrotado e o ônibus para. As pessoas começam a descer. Desço também. É difícil caminhar em meio a tanta gente e tantos veículos chegando e saindo. Ali perto, dois homens trocam algumas palavras enquanto esperam um ônibos manobrar à nossa frente. Percebo que muitos, como eles, ainda precisam embarcar em outra linha. Vou com a multidão para além dos bloqueios. Depois volto: quero procurar o fiscal e contar o que aconteceu. Passo por grades e portões, alguns mecânicos talvez, salinhas mal iluminadas por lâmpadas de uma luz amarelada e triste. Anoiteceu.

Acho que dei a volta pelo pátio e, quando estou de novo perto da entrada, vejo o motorista chegando, suado, desgrenhado, cercado pelos colegas. Ele me repreende. Muitas vozes o apóiam. Tento me explicar. Conto os detalhes do que aconteceu a partir do momento em que chegamos ao ponto de encontro combinado, um pouco como o faço por escrito aqui. Faço uma pausa no discurso e ouvimos sirenes. Uma viatura, com suas luzes vermelhas e azuis, estaciona do outro lado da grade. Vejo vários policiais que desembarcam e conversam alto, em japonês. Tenho vontade de continuar a narrativa-explicação, mas sei que ninguém está interessado. A certeza da minha culpa é uma unanimidade. Há memes e tweets sucintos e certeiros. Um rapaz encosta o celular no meu rosto, como que para estabelecer uma ligação permanente entre as acusações e a minha pessoa. Mostra a evidência para uma criança no colo da mãe.

Eu concordo com eles. Só queria ter conseguido fazer algo diferente. Tento ainda. Quando não consigo, abro os olhos.

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