Autor: Pádraig Kenny
Título: Tin
Editora: Chicken House, 2018
Quero guardar Tin junto com as ficções sobre as grandes guerras, porque nele sinto a atmosfera carregada de tensão existencial do entre-guerras. Dá vontade de reler Sursis.
Esta é uma aventura em que o real comparece, mas um pouco desfocado. Nela, as balizas geográficas e históricas servem tanto para nos fornecer referências quanto para enfatizar que não estão fincadas no mundo tal como os nosso olhos veem ou os nossos livros contam.
A liberdade que o leitor encontra no texto é reforçada pela ausência de ilustrações. É apenas a imaginação que desenha os traços fisionômicos dos personagens, que compõe cada um dos mechanicals e delineia as paisagens. Ao mesmo tempo, a possibilidade de decidir sobre o contexto da história, de inventá-lo, é um impulso em direção à realidade e à tentativa de interpretar a história da Europa no século XX.
Como de costume, a existência dos autômatos provoca reflexões a respeito do que é ser gente, sobre a natureza e a distribuição das almas, sobre poder, vaidade e filiação.
Uma característica particularmente perturbadora da organização social descrita é o fato de que é proibida a construção de autômatos com as dimensões do humano adulto. Por isso, o exército de trabalhadores e serviçais é formado por robôs que têm o tamanho e as proporções de uma criança.
Os pais e educadores podem constatar, aliviados, que a história é uma elogio à amizade, ao altruísmo e à persistência, essas coisas que ultrapassam tudo aquilo que o mundo valoriza e considera apropriado. A leitura pode também nos levar a questionar memória-e-esquecimento como um amálgama de fenômenos complexos e fundamentais para a construção da identidade.
O grande ausente, aqui, é o feminino, bravamente representado pela menina-artesã-engenheira Estelle e pela lembrança que Chistopher conserva da mãe. Essa ausência faz bastante sentido, já que a predominância dos autômatos cria um mundo em que homens podem dar origem a outros 'homens', prescindindo da interferência disruptiva das mulheres. Sendo assim, o feminino pode ser pensado como a própria possibilidade de futuro, de 'cura' e reequilíbrio para a sociedade angustiada que se retratou aqui. Ponto para o autor.
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